sábado, setembro 02, 2006



Porque os pássaros engaiolados cantam
Lucia Luiz Pinto
Luiza estava aflita. Andava de um lado para o outro, abrindo e fechando janelas. Subia e descia as escadas procurando coisas que não estavam em lugar nenhum “Que coisa, continuando assim vou enfartar ou levar um tombo. Quem sabe as duas coisas”pensava Luiza ao subir pela décima vez as escadas atrás de seus óculos de ler.
Respirou fundo, lembrou que os óculos estavam na mesa do café, lá em baixo. Desceu. Sentou-se à mesa e começou a chorar. Um choro triste, doído, quieto. Na verdade não tinha acontecido nada especial naquele dia. Depois de chorar por quase uma hora, Luiza se deu conta que estava no limite. ”Que vida doida, ninguém me avisou que era assim, presa em um trabalho que odiava, filhos adolescendo, contas por todo o lado”. E o pior de tudo, apaixonada por Rodolfo, que era irremediavelmente casado (embora a mulher estivesse fazendo doutorado na Alemanha).
Quando terminou esse balanço sobre a vida, Luiza tomou uma decisão. Resolveu fazer um esforço e ir à praia ler um livro, ficar quieta. Afinal era sábado, as crianças estavam na casa do pai e ela precisava mudar de ares. Subindo de novo as escadas, localizou seu arsenal praiano — short, óculos escuros, filtro, toalha e chapéu. Foi andando a pé, de Botafogo para Ipanema pela Lagoa.
“Que bom. Agora é só deitar, apanhar sol, dar umas nadadas e adeus fossa. Fico nova” pensou Luiza enquanto andava na areia, em direção ao mar.
Depois de algum tempo, já bem relaxada, levantou para comprar um sorvete e viu Rodolfo. Sentou de novo, rápida.. Quando ele chegou perto, Luiza fez que ia embora. “ Puxa vida, já estava indo” disse ela bem sem graça, enquanto abria espaço na areia.. “Acho que vou ficar mais um pouco. Está tão lindo o dia!”
Luiza se ajeitando na toalha procurou relaxar. “Será que ia dar certo?” Seu espírito neoclássico dizia que sim, o senso prático dizia que não. Espichou as pernas, fechou os olhos e lembrou do livro que estava lendo, “Um teto todo seu”. Nele, a autora questionava porque as mulheres quando faziam arte e literatura transformavam tudo em expressão pessoal. Segundo ela era como se as vidas, o cotidiano, as pequenas e vulgares lutas e suspiros fossem universais. Por que essa mania de colocar no papel pequenas farsas, dramas e comédias de segunda categoria?
Ainda pensando sobre o livro Luiza abriu os olhos e não viu nada. Levou um susto. Conhecia esse caminho de não ver nada e não era bom. Principalmente porque Rodolfo estava ali, em pé, perto dela. Falaram bobagens, amenidades e tentou de novo. “Senta aqui”, disse Luiza, bem baixinho. Rodolfo ouvindo, respondeu que ia primeiro até a água. Luiza respirou fundo e lembrou do tarô, posto recentemente por sua vizinha. O enforcado, o desgaste, o longo prazo. “Que saco. Eu não aprendo, nem a magia ajuda!”.
Pediu uma cerveja, tomou outra, voltou a ler seu livro. Rodolfo chegou da água, muito tempo depois. Viu que Luiza estava com os olhos cheios de lágrimas e, claro atribuiu ao livro. Ele era assim. Prático, simples, direto. ”Se você quiser uma carona, eu te levo, ou melhor ainda ,quem sabe um almoço, dividir um prato, jogar conversa fora”.
Sentaram no restaurante. Tensos, amigos, mentirosos.
A conversa correu solta. Era incrível como ela conseguia transformar lugares comuns em coisas interessantes. Anos de prática, palavra – arma, palavra – ponte, palavra – morte.
Os olhos de Rodolfo eram tristes. O motivo, efêmero, nada é o que parece. No fim a vitória, o riso mútuo, o relaxamento. Mais uma pequena batalha ganha por Luiza, inútil, mas ao mesmo tempo tão necessária. Não sabia como acabar o dia, afinal não havia ganhoa guerra. Ocupava um pequeno posto, estratégia de soldadinho de chumbo em uma história esquisita, sem começo nem fim, sem pé nem cabeça. O pior foi ouvir o óbvio. “Até que valeu a pena ter ficado com você. Foi bem agradável”
Luiza, com um meio sorriso no rosto e muita pena na alma, guardou os efeitos especiais, esqueceu as frases de almanaque, e entrou no carro. Ficou muda até chegar a casa, ou melhor dizendo, veio cantarolando uma música de sua infância.
“ Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou E a menina que gostava tanto do bichinho chorou, chorou, chorou, chorou...........

1 Comments:

Anonymous Léa Madureira G. Lima said...

Oi, Lúcia!

Que bom encontrar você por aqui! Quando perdemos o medo de divulgar nossos textos, crescem as idéias. Nessa ordem as coisas fluem (acredito). Gostei da história! Quantas Luizas presas ao cotidiano de tantas limitações, não? Até que se abram as gaiolas... a sensibilidade produzindo sofrimento. Tantos! Parabéns! Vamos multiplicando, somando, navegando.

Bjcs, Léa

11:20 AM  

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