sábado, agosto 12, 2006

Benditas as Sombras!


Creio que vocês inda se lembram das primeiras cenas de Cidade de Deus, premiado filme brasileiro. Isso mesmo! Aquela galinha escapando das mãos de quem preparava o sacrifício. Ótimo flash back cuja importância consistia em deflagrar o fato, a história. Nem sempre uma perseguição é irreversível e conduz logo à primeira cena. Por vezes reverte-se o processo, desvela-se o destino. Deixo, porém, ao leitor, as reflexões recorrentes...


Cantarolando uma cantiga de roda, abraçada à boneca de pano, no quintal, esperando os primos e as brincadeiras, a menina. De repente, volta-se para os gritos e xingamentos da De Lourdes. Faca na mão, olhos esgazeados, a cozinheira esconjurava a repetida cena. A galinha escapara de suas mãos! De novo, não! Raza! Raza! Raza! Tinha que pronunciar assim, a palavra de trás pra frente, senão, era "raza" por sete dias em sua vida, já sem sorte.
A ave pôs-se a correr pelo quintal. Sem cabeça! Atrás, o prato, o sangue e, ainda, juntos, caídos ao chão, crista bico pescoço e os olhos baços a espreitá-la. De um outro mundo! Depois, horrorizada, vinha a constatação: jamais poderia abrir geladeira, em dias de galinha ao molho pardo! Matar a sede? Só se for na talha... O cheiro da morte espalhava-se na água do escaldo, pra soltar as penas da carijó mais facilmente. Galinha em seu prato, nunca mais!
De Lourdes pitava sem parar e xingava mais ainda. Quando não fazia o "serviço completo", sentia-se em pecado. E a expiação de suas culpas eram aquelas reações involuntárias, reflexos condicionados da anatomia dos animais. A lei do retorno, ouviu dizer, não falhava. Mesmo não distingüindo bem o que era o tal retorno, admitia uma verdade: quem faz mal seu dever, paga em dobro. E se não acerta de novo, não tem perdão para a alma! Daí sempre o medo a pontuar seus dias, como um pêndulo. Na maioria das vezes, havia mais acertos do que erros. Beirando a sombra das dúvidas, porém, uma bendita vontade de acertar! Nem que fosse a galinha... pra panela!


Escurecia. O homem caminhava sobre a ponte, atravessando o córrego. Há horas em busca da invisível margem. Pra trás, outra ponte que jamais transporia: mãe, pai, mulher e filha. À revelia de seus pensamentos, a estrada seguia. Indistintas luzes ao longe. O abismo das falhas.
De luto, cobre-se o presente. Enterra-se o passado. Desfolha-se a futura árvore. Gênese e caos. Criador e criatura tão unidos, tão distantes! Sente-se em fuga, o homem. Foge,porém, do quê? Não saberia precisar de imediato. Sabe-se perseguido. Atingido, cai à beira do rio. Livre do corpo, foge-lhe a sombra. O olhar atravessando a porta da sala, retornando ao discurso interrompido, aguardando a paz em família. Mas o algoz não dá cabo do mandado. Podia perceber seu resfolegar, entre a vegetação do bosque. Sentia a insegurança do matador atravessar-lhe a sombra. Pior não saber de onde vem a inútil vingança; de onde, o inimigo. Que aparência possui? Como trairá seu futuro?
Certeza, apenas, de que jamais poderiam libertar-se um do outro. A margem e o rio, a vítima e o algoz, o corpo e a sombra... o Pai o Filho e o Espírito Santo. Não lutaria mais contra a correnteza! Inatingível, segue a eterna margem do rio. Apaga-se a foz. Amém!


Saiu em traje de festa. Chegou à hora marcada. Aos seus ouvidos, exasperante, a música do momento. Alegres os convidados. Sabores agri-doces, salgados. Atravessando paredes, temores pressentidos. A escuridão ronda o abraço, o beijo, a fala. Faz calor, mas sente frio. Estranha insegurança! Ela que fora desprendida, despojada, via-se cercada por suspeições. Cada face, ao redor, parecia interrogá-la. Por que fugiu do local do atropelamento?
No trânsito congestionado, bufavam os motoristas. A esquina próxima era um convite. Instinto de competição, ao dobrá-la? Resolução prática, rapidez de raciocínio? Interesse de chegar e sair mais cedo da festa? Qualquer das hipóteses, parecia-lhe irrelevante. Pior, muito pior! Era agravante. Abandono da vítima pelo motorista. Cadeia na certa! Trôpega, sentia agora calor, após a taça de vinho, de um só gole, garganta abaixo. Mas não deu certo! Continuavam, medo e angústia, sufocando-a. A ânsia de sair correndo, impelindo-a porta afora. A liberdade da rua. O trânsito lento continuava... Seu carro, onde foi mesmo que ela subiu o meio-fio e bateu? Onde estava o corpo que pulou ao capô e estatelou-se no chão? Levaram o carro e a vítima, em tão pouco tempo? Que foi feito do sangue que vira escorrer da fronte do rapaz?
O porteiro apareceu com as chaves. Tenta fugir novamente, os pés não lhe obedecem. Alucinações?
— A senhora procura pelo seu carro? Está aqui na garagem. A senhora está bem? Temos um motorista pra levar convidados em casa, se não puderem dirigir. É um serviço oferecido aos convidados. Não se preocupe...
A briga com Raul foi feia. Nem viu quando o cinzeiro voou da mão do noivo e atingiu-lhe o braço. Olhava pra blusa de mangas compridas, relembrando tudo. Não teria como esconder dos pais o fato irrefutável. Seria outra morte anunciada. Há muito silenciara argumentos, esforços pra convencer! Viveria mais um pesadelo, entre fios invisíveis da teia indissolúvel. Tramas de ciúme à sombra de eternas desconfianças que, sem dúvida, queria afastar de seus ossos. Ossos – acreditava ainda – pejados de amor-perfeito e de grande cansaço. Há tempos, morrera lutando. No momento, apenas uma sombra respondia por si e caminhava em seu lugar. Quiçá sobrevivesse!


A porta do templo aberta, mulher e lágrimas imolando a dor. Que resiste à prece, ao cântico suave, ao sono. Perseguem-na, lamentos culpa vergonha. A dúvida, o ódio por ter renunciado à luta. A fraqueza incontida, tanta impotência! "Matar um leão por dia"! Mas agora era a savana inteira que se apresentava a ela. Não tinha mais como resistir. Estava além da força e da vontade. Chorava baixinho, agarrada a criança.
Assinou o termo da doação, no Juizado de Menores. Sem direito ao conhecimento dos novos pais do filho. Caso ocorresse encontro casual, tudo bem. Mas sem identificações, muito menos cobranças, exigências, chantagens. Entendeu bem? Sim senhor, seu juiz. Não vou incomodar (não incomodo ninguém, desde que nasci). Bom, mas se insistir, poderá ser presa, pelo que rege a lei, e diante desse contrato.
A sombra que caminha pela calçada não se debruça em muros, conduzindo a invisibilidade, não se sabe a quem pertence. Por certo cometeu pequenos furtos inconsistentes, logo abonados, revertidos em esmolas, pelos donos do comércio miúdo, na relevância de boas ações. Na rua somem as incoerências. Há menos dificuldades entre os peixes pequenos. Os graúdos escondem-se em locas profundas. A mulher mede espaços e degraus. Recolhe trapos e utensílios.
A companheira de presídio alertou sobre o sumiço dos meninos de rua. Soube que chegaram a fazer todos os testes na sua criança, até ressonância magnética, para apreciação dos órgãos e exames de sangue! Uma fila de doadores, com destino certo! Horror agora, além da humilhação e da vergonha.
Na igreja de portas abertas, vivenciara reza e prostração. Deus ouvira suas preces? A sombra da dúvida, talvez, houvesse afastado o mal. Por enquanto, não saberia dizer. Agora, além de si, existia alguém para somar esperanças. Sombras juntas que se reconheciam. Na mesma luta!

Quando a luz quer brilhar, as sombras se exacerbam. (dito popular).
OLIP: 30/04/2006 Léa Madureira

3 Comments:

Anonymous Léa Madureira G. Lima said...

Oi, Ana, querida!

Como é bom contar com pessoas como você, a prestar importante serviço à nossa Literatura! Tão difícil o encontro com o leitor! Entanto, vendo a resistência e a generosidade desse espaço, não perdemos a esperança. Afinal, de tanta desconstrução, tanto vazio, um dia ainda transbordaremos. Então vamos voltar à seiva, alimentando as raízes, da mesma espécie. Quem sabe, pela palavra, ainda haja tempo?

Obrigada pelo espaço a "Benditas as Sombras".

"A seara é grande, e poucos são os obreiros". (É bíblico... mas, também, reversível).

Parabéns, pelo trabalho literário, seus textos que acompanho em nossa OLIP!

Bjcs, Léa

4:35 PM  
Anonymous Mariza de Almeida Rebouças said...

Ana Lia
Parabéns pelo blog, um espaço a mais para escritores lidos de menos.
O texto da Léa, " Benditas Sombras" é um arraso!
Mariza

9:02 AM  
Anonymous Anônimo said...

Wonderful and informative web site. I used information from that site its great. » » »

4:02 PM  

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