sexta-feira, julho 28, 2006



A fotografia

Noite de inverno na Serra, a casa da família não recebia hóspedes há quase cinco anos. Taça de vinho, sofá de couro branco, cobriu-se com a grossa manta de lã, sozinha na sala espaçosa, a caixa no colo.

A caixa fora resgatada do armário antigo — tesouro perdido no fundo do mar. A caixa era delicada: coberta de feltro vermelho, adornada por delicadas aplicações de renda, fundo macio, onde, deitadas umas sobre as outras, inúmeras fotografias lhe sorriam. Dedos brancos, magras bailarinas deslizando, com ternura, entre papéis amarelados. Fotografias escondidas há décadas, risos envelhecidos, bem cuidados e protegidos, sofridas apenas as ações inevitáveis do tempo. Espalhadas pelo chão, algumas fotografias coloridas, muitas em preto e branco — suas preferidas. Beijos inesperados, festas, caretas do pai e rubores da mãe. Protegidos de poeiras e traças.

Descobriu uma foto que ainda não tinha visto. Em preto e branco, um jovem casal, sorrisos de lua de mel. Havia algo de especial nela. Ao fundo viam-se casinhas humildes da vila de pescadores, mulheres em recatados trajes de banho, homens e seus calções, correria de crianças na areia. Verão. Cidadezinha desenhada, vivendo e morrendo atrás do casal sorridente. Angústia, saudade, veias entrelaçadas, apertando, sufocando, gosto de sal, amor, saudade. A fotografia em preto e branco e os sorrisos dos pais. Descobertos. Revelados. Ainda viviam. Desejou que o tempo voltasse, que a vida voltasse. E viu a fotografia colorir em seus olhos coloridos. Era como se a fotografia vibrasse e o jovem casal vivesse novamente.

Praia cheia, verão. Faziam pose, equilibravam-se em cima de uma pedra. O riso largo rasgando o rosto largo do pai. Ainda não usava óculos naquela época. Um sorriso leve e preciso. Os braços morenos e compridos enlaçando o corpo forte da jovem mulher — a mãe. A formalidade comportada de papai — blusa branca, calça clara, sapatos — contrastando com a alegria da mãe — vestido branco e azul, estampado. Mamãe adorava vestidos alegres, vestir-se com jeito de sol. Papai: militar, esguio, elegante; mamãe: pés descalços, batom discreto realçando lábios grossos da bela mulata, à vontade em frente ao mar. Mamãe, orgulhosa filha de Iemanjá.

Mamãe ainda sorria na foto. Mamãe ainda vivia na casa onde passaram várias férias escolares. O riso alto, largo e sem censura — invadia novamente os cômodos, ecoava nas paredes frias, espalhava-se pelos quartos, os risos das crianças, as piadas, histórias, músicas inventadas e as sessões de cócegas. Lua de mel em Salvador, o vento soprando forte, bagunçando os cabelos encaracolados e avermelhados da mãe. Fios grossos, longos, espalhando-se afoitos por olhos, nariz, boca.

Ela gargalhava. Riso claro, franco, traços bem definidos, mamãe era toda certezas, franqueza. A jovem mulher respirando serenidade. Mamãe sabia que morreria cedo. E contava aos filhos, ao marido, pedia a todos que se preparassem e aprendessem a viver como adultos, não dependessem dela. Lembrou o quanto a odiara por isso. Como podia dizer que os deixaria, para sempre, com tanta tranqüilidade? Pensava que jamais a perdoaria. A mãe tinha razão. Partiu cedo, jovem demais. E renascera dentro da caixa vermelha. Papai casou-se novamente, o irmão viajou para o exterior. E as fotos sorriam, saltando de dentro da caixa vermelha, onde todos eram jovens e ainda viviam.



Acendeu a lareira, trouxe todas as fotos, jogou-as no fogo, uma a uma. Primeiro veio a fumaça, papel queimando, rostos enrugando, fotografias encolhendo, murchando. Depois vieram as cinzas e a liberdade. Todos livres. Colocaria anúncio no jornal no dia seguinte. Vender a casa. Começar a viver.
Renata do Vale.

5 Comments:

Anonymous Léa Madureira said...

Oi, Ana Lia!

Que presentão, num dia cinzento, foi encontrar, aqui, o texto da Renata! Tema que muitos visitam, mas poucos tocam, em lirismo, a cadência que nos vai envolvendo e cativando. Que bom compartilhar o sopro de talentos, que esse espaço oferece, Ana!
Que a Renata siga sempre ouvindo a direção dos passos! Parabéns e muita inspiração, para novas páginas!
Bjcs, Léa

1:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

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