segunda-feira, junho 12, 2006


Roteiro

Pedro trabalhava, árduo, no romance, tentando um isolamento do mundo, quase impossível. Para mergulhar, certeiro, na trama imaginada – ainda no quarto capítulo. Sobre a solidão o romance (aspectos sutis e trágicos), realismo encantatório? Quisera. Nem Pedro sabia... A vida continuava, entanto, ao redor. Irônica frágil irreverente. Absorto em indagações sobre a Escrita: o quanto se torna necessário o distanciamento dos fatos e pessoas comuns, já que os personagens, embora fictícios, são pautados na vida real. Sempre a justa medida atormentando-lhe o juízo. E no caso do romance histórico? Veia romântica perturba a história, esta compromete a ficção? Tantas dúvidas giravam, incessantes, na cabeça de Pedro. Ainda bem.

João e Maria discutiam alto sobre qualquer coisa, pouca roupa no corpo, chegando às vias de fato. Que vias? Depende da criação de quem os escutasse – precisavam de platéia. E como. Razões as mais tolas serviam de deixa para o espetáculo: comida do cachorro, febrícula do filho, desaforo da sogra, etc. Agora a briga versava, calorosa, sobre o novo morador embaixo. Bonito o rapaz, de posses (parecia), João morrendo de ciúmes. Maria feliz a sorrir farta, inseguro o maridinho, vencera a partida desta vez.

. Gostava da “suposta” solidão o garoto, desde que lhe admirassem os verdes olhos, nervosos. Herdara um pé de meia reforçado, monte de livros, mas, na maioria, fechados. Enorme a estante na sala, adequada à simples decoração, simples e confusa. Confuso o solitário garoto, apenas um cão fiel a tiracolo, inúmeras as medalhas. Jogador de tênis - Júlio. Atleta das mil e uma noites ou um príncipe sem reinado? Campainha levada revela uma criança silenciosa, arranjo de flores reconforta o ambiente, covinha no rosto a esboçar um sorriso.

Pedro distraia-se com as vozes e ruídos, quarto capítulo reclamava de mansinho. Quem sabe, introduzir ou mesclar outros personagens ao romance: nomes, situações, querelas, desfechos. Infinitas as chances – administrá-las com cuidado. Nada em demasia, dissimulando o óbvio, pitada de humor! Encantar o real? Na justa medida. Sangue percorre-lhe a alma apaixonada, escravos os sonhos loucos, em busca de calma e pouso.

A talentosa e esguia Elisa na beira da janela – naturalista carnal rude. De seda branca a camisolinha, rasgão no ombro, furor ao longo da imagem. Presente o gesto inoportuno de quem, deveras, ousou: acontecimento singular, uma só vez, sensato o véu imaculado? A estória se repete, sempre no mesmo lugar, talentosa e esguia a moça na janela. Asas à imaginação. Leveza ao brincar com o bem-te-vi na sacada, a contrastar com o abrupto e soturno olhar enviesado. De quem odeia... Retrato de mulher!

Uma mulher e tanto – entregadora de pizza em casa. Era um magricelo rapazinho até então, mudam os tempos, rebolava contente a moça. Primeiro emprego? Nova na marcha, na sem vergonhice, no excesso de caras e bocas. Sequer um troco pra vinte, mal articulava as palavras, unhas pintadas de roxo breu. Inventada a cor. Quantos homens a querer um tempero domiciliar, coração de Copacabana, sob o luar de Maio. Feitiço moreno, feitio único, farpas cândidas e negras. Rita.

Pedro devora a insossa pizza até o fim, muita fome, quase o dia inteiro sem comer. Saudades da Amélia – cheiro amoroso e meigo, massa ao dente perfeita, perfeita na cama. Sem defeitos? Distância é sábia, ilude os acordes em ruínas, cantarolando... Comum as brigas nos momentos cruciais do escritor, a incentivar o talento, ou desnorteá-lo? Dor não se explica, tampouco se previne, coração partido assombra as lágrimas guardadas. Pedro negocia com a ferida aberta, ponto final no quarto capítulo, virulenta a falta de Amélia. Ouve a voz da parceira na secretária eletrônica, tediosa a via de acesso, soluça um bocado.
Antes de dormir, corre à procura de Elisa na janela, escura a varanda. Varanda? Talvez.

Sonha um bem-te-vi azul no colo da Amélia. Mudo o telefone pela manhã; do orelhão fala, vigoroso, com a namorada. Relutante e sem vontade inicia o quinto capítulo – retomar o eixo exato. Esquecido?
Quantos seriam? Sete. Grandes e cheios de surpresas.

João e Maria acordam os vizinhos, aos berros disputam pela voz
mais sonora e possante, passarinho fugira da gaiola. De quem a culpa? Cena devastadora toma conta do casal, embriagados de cólera, de medo, de susto. Das próprias e maldosas armadilhas? Cansados das rotineiras desavenças – atores de uma novela vulgar. Vulgares os corpos semi nus dos protagonistas: feiosos gordos tristes. Foi-se o passarinho.

Visita da sobrinha renova o confuso e escorregadio lar de Júlio. Ela chega despenteada, sem eira nem beira, dezesseis aninhos. Flores na mão - ar brejeiro de quem muito quer, seduzindo o jovem tio. Que se encanta com a afilhada dileta! Depois falam mal dos vorazes ânimos masculinos. Pedofilia? Tão em moda o crime, tentação da carne data de longínquas eras, porque agora... Música errante a confundir o panorama. Vale um capítulo? Um longo parágrafo só, soprando a favor, e nada mais.

Novamente a bela Elisa na janela, penteando os loiros e rebeldes cabelos, vento frio atenua o olhar roubado. Tremem os pensamentos curiosos – reduzi-los à uma trama? Vacila a letra e a coragem. Mente em desordem prevê um caos breve, Elisa exibe uma libertina virtude, machucando os aflitos dilemas do escritor por perto. Violento o jeito dela, entreaberto o sonso perigo, fortuito. Elisa se vai atenta, alguém irrompe no jogo, passado tem braços de bronze. Marcantes.

Entregadora de pizza sumiu rapidinho – bom padroeiro enamorou-se de Rita. Prendas e ofertas, várias, mas em casa. Restrita.

Pedro procurou a amada – saudade não lhe dava trégua. Amélia, espanto, indiferente aos rompantes do parceiro, arrumara outro de verdade. Colega de trabalho na Santa Casa da Misericórdia, ambos médicos, angiologistas. Paixão antiga e oculta, rompido o casamento do rapaz, oito anos. Parece.

Amélia é que era mulher! Pedro à beira do abismo: sem sentido, sem juízo, sem tamanho. E tinha o romance pela frente, articulado o enredo, término ressentindo o sofrimento do autor. Corre mais uma vez à janela, todas as esperanças voltadas para a audaciosa Elisa, exilado o retrato de mulher.
O que vê: punhal junto ao tênue pescoço, sangue bombardeando a imagem. A desenhar na parede do prédio um perfil inacabado. Findo o sétimo capítulo e a vontade de Pedro.

Ana Lia



Pedregulhos

Era uma vez...

Em uma pequena cidade no meio da selva Amazônica (flora, fauna, rios caudalosos bem típicos, gigantescas árvores, ancestrais tartarugas aquáticas - embelezando olhares e paisagens) progresso ávido para instaurar-se. Famílias “pacatas” desconfiadas com tantos investimentos. Hotéis, farmácias e, um novo bar no vilarejo... Tudo acontecendo: traições, vícios, roubos – por enquanto, em pensamentos apenas. Igrejinha rezando pela constante fé da comunidade, embora recebesse bastante dinheiro do município. Para calar-se? Diante de promessas e falcatruas? Lendas indígenas arrepiavam-se de desgosto. A da Lua, da Mandioca, do Curupira, prometendo vinganças.
A mais nova invenção: levar o cinema até lá, introduzindo cultura através da produção nacional. Telão na principal praça de Pedregulhos, a única! Motivo de encantamento, orgulho e festa. Festa aos sábados – roupas de chita coloridas, sandálias deixando os pés nus, alvoroço nos jovens corações de todas as idades. Desconfianças de mãos dadas com as vitórias régias. Sinuosos destinos.
Bem verdade que, logo, na exibição do primeiro filme, grande tumulto: “Deus e o diabo na terra do sol”. Metade das pessoas entenderam, já a outra não; divisão e muito barulho na praça e no novo bar. Ressaca de botar medo no Domingo, noivados rompidos, desavenças entre amigos, “Romeu e Julieta” ao vivo. Um tal de se rebaixarem, uns aos outros. Simplório Pedregulhos, dividido entre famintos intelectuais e bobos da corte. Curupira exultante! Primeira querela a inundar de desavenças o solo do vilarejo. A Santa Igreja interveio em nome da abençoada paz, pedindo às autoridades um filme mais leve.

Como resposta, enviaram: “Ele, o boto” – lenda comum na região, mas que dava pano pra manga, principalmente entre as devotas solteironas a bisbilhotarem vida alheia. Cuidado com os cor de rosa: perigoso e traiçoeiro – diziam sem parar, morrendo de vontade de encontrá-los. Um só mergulho e pronto! Senhoras fofoqueiras quando viam mãe solteira, repetiam em coro: “caiu nas lábias do galante boto”, invejando a sorte da moça. Lenda ou não, pairava enigma no ar (respeito aos bonitos rapazes de chapéu no mês de junho). Fonte de prazer e medo.
Imaginem a excitação das fêmeas no dia do filme, todas repletas de maquilagens e bijuterias, contemplando o “Carlos Alberto Riccelli”. Acharam-no lindo – noite de orgias e sonhos. Felizes, satisfeitos, vaidosos, os rapazes de Pedregulhos: sono geral tranqüilo. Menos a Igreja, tamanha a devassidão. Confessionário vazio ou em festa? Outra queixa às autoridades.

Desta vez enviaram uma excelente comédia, vencedora de vários prêmios Brasil afora: “A marvada carne”. Com a filha da Fernanda Montenegro (conhecida pelo nome) – Fernanda Torres.
Estranho fenômeno ocorreu em Pedregulhos, os habitantes realmente interessados na sétima arte. Queriam saber da estória do filme, do ano em que foi realizado, dos prêmios e da direção. Pesquisaram na Internet (raro o advento do computador), obtendo algumas e poucas referências. No Sábado previsto para a exibição, população atenta e bem comportada, aplaudindo de pé no final do filme. Boas e sérias gargalhadas! Curupira puxou os pés dos mais empolgados noite adentro.

A um passo do progresso – leram o possível e o impossível sobre cinema (na pequena biblioteca de Pedregulhos). Quiseram conhecer os outros filmes do Glauber Rocha, entusiasmados acerca de “Central do Brasil” e mil outras obras primas (“Cidade de Deus”, “Abril Despedaçado”, “Auto da Compadecida”, etc), transformando o lugarejo num mini polo de Cultura, imerso na extensa Amazônia. Amazônia das audaciosas águas, das lendas e causos, das raras e misteriosas vegetações. Incansável sua travessia – caminho dos inúmeros viajantes em busca de sonhos, baladas, silenciosos ritmos.

Breve abriram, entusiasmados, o primeiro cinema de verdade. Com direito a pipocas e namoros – lotação esgotada quase todas as sessões. Pequena locadora ao lado, embora poucos os que possuíam vídeo. Nome de ambos: Nhô Quim.



Promessas e mais promessas: “Lavoura Arcaica”, agora. Promessa é dívida. Comum esperar quase, ou até mesmo um ano, a chegada de um novo filme. Mas valia a pena, e como! Curupira em paz.

Era uma vez..

Ana Lia.

3 Comments:

Anonymous Léa Madureira Gurgel Lima said...

Ana !

Mais uma vez adorei!
A homenagem à magia do cinema estende-se na progressão que vive a pacata cidade de caudalosos igarapés. Mas nada será como antes, não ? Uma delícia que, inverso o tempo, nos remete ao tão lírico "Cine Paradiso".

P a r a b é n s !

Bjcs, Léa

10:59 PM  
Anonymous Mariza Rebouças said...

Ana Lia
Como sempre, sua refinada sensibilidade transbordando nos textos. Devo agradecer ao Ivo e à Léa por me ensinar o caminho do seu blog.
Vai nessa!

11:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

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12:19 PM  

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