sábado, maio 20, 2006




Homem na janela

Vaga idéia de quem era, lembranças perdidas ao léu, estranhando as próprias mãos, vigorosas. Vestes sóbrias e sombrias, jeito rude de apresentar-se, pouco importa a aparência. Solitário no mundo, torporoso, uma fotografia ampliada na parede. Sorria, automático, para ela – sem noção do que significava. Seis figurantes. Restos alimentares em volta: pão preto dormido, queijo de coalho partido em triângulos, café com leite cheio de nata. Este seu atribulado e conciso pé de meia, morada tímida, suficiente, retraída. Olhar à espreita...

Janela em frente ao corpo inerte, avistava um corpo de mulher em movimento. Com um binóculo e uma lente de aumento desenhava-lhe contornos, expressões, sentimentos. Rara a sutileza, ambíguos os gestos, real a presença. Desde cedinho, ao amanhecer, quando o sol despontava luminoso, até o final da tarde antevendo delírios e aventuras. Vaso de flores tropicais rejuvenesciam a bela imagem. Mármore ou pedra sabão, a escultura?

Tinha um namorado a moça em frente, o mais assíduo dos visitantes, magriço e pálido. Ciumento – talvez. Não fazia jus à lânguida Sofia (ganhou um nome a personagem), nem à calorosa meninice a definir-lhe o jeito, levianos os cabelos de mel. Sofia.
Afinada a corda do violão, música beirando o chique, entre tantos pendores. Professor vinha para as aulas dia sim dia não, exceto aos domingos, arrebatador o intuito. Sofia aprendia a lição, supunha o narrador recluso, toque de malícia rondando a cena.

Arrebatador o olhar do homem na janela, visceral e único, corroendo-lhe a alma esquecida. Coração a reter majestosa relíquia, nua no lençol aberto, corpo em carne viva. Bravo o guerreiro oculto, azul o esperançoso horizonte, sombreado de tramas e baladas. Pele morena do homem na janela a apropriar-se inteira de Sofia – revelando inéditos gozos, vagarinho se vai bem longe. De nada sabe a moça?

Padre fervoroso a visitá-la sempre, perdoar-lhe os mesquinhos pecados, em troca de uma Ave Maria, três Pai Nosso, cinco Salve Rainha. Aleatórios os números e arrependimentos. Sofia jamais relutava os dizeres do frei, confiando no supremo Deus, nas rezas dos fiéis mortais. Agonizante o rebanho!

Vida de Sofia dando sentido aos olhos famintos do homem na janela. Destituído de valor e censura – alarmado com tantas interrogações. A inventar um pedaço de estória qualquer, sem brilho o resto de tez revolta, um dia convincente. Inúmeras as tentativas em recordar o passado: Família? Filhos? Mulher? Retrato na parede onde o homem na janela não se percebia em nenhuma daquelas pessoas – cúmplices, felizes, solidárias. “Cumplicidade”, de onde vinha o registro deste estado de ânimo? Ou parceria? Inviolável a certeza atordoando-lhe o corpo. Conhecedor de infinitas nuances, cultura razoável no peito, doente das trevas? Desvio na rota – urgente o retorno à janela, luz no denso clarão, Sofia. Lúdica.

Novo o rapaz com um ramo de rosas na estampa; quem seria... Tantas as armadilhas criadas pela moça, adepta aos imaginários seres de alcova, em cada um nascia um vulcão. Prestes. Sofia tremendo incrédula – ponta de angústia reveste o encontro, faceta frágil a revelar outra donzela. Terra rodopia vagarinho, quase desmaiam as ancas da moçoila e do homem na janela, juntos. Chamas audazes irrompem sem piedade. Fatídico o enredo, nó sufoca a garganta de Sofia, crime ou suicídio?

Qual nada, costumeira a nuvem de pedra no binóculo do homem na janela, mal estar apenas. Retrato continua o mesmo, igualando uma paz devassa, perigosa. Ébria a miragem de Sofia, curvas feiticeiras a sorrir, vastos os lençóis de seda. Sonhos enlouquecem a lente de aumento. Fictícia a trama de outrora? Nem todos os gatos são negros. “Quisera um novelo de lã, mantas e mantas, quando chegasse o inverno”.

Senhor de cabelos e barbas brancas, maduro no andar, na preguiça, na espera. Pai? Sofia à vontade, beija-o na boca. Ardente. O tempo pára, o sol se põe, a canção calou fundo – mar recupera a ilha afoita.

Homem na janela imagina uma visita à moça Sofia, hesita um tempinho, melhor tê-la de longe. E se ela não existir? Ou, então, for feiosa? Mau hálito? Desenganada? Série de maldições desarmam o homem na janela – nem nome ele tem. Horizonte lá fora inova um poema azul e sincero, esperançoso, abrigando letras e palavras.

Nada será como antes amanhã, que notícias me dão dos amigos?

Ana Lia

Tema livre

4 Comments:

Anonymous Léa Madureira said...

Oi, Ana !

Já havia lido, antes, a cópia que vc nos deixou. Agora, a oportunidade se fez de parabenizá-la. Adorei a aura de mistério poético, discorrendo em lirismo todo o movimento que nos remete, do retrato à janela, a existência de Sofia. Relembro um amigo Ézio Pires, poeta e anarquista, que costumava dizer... "entre o sim e o não, há sempre o talvez. Que é o melhor do amor !" Incrédulos, sim ! Mas cheios de paixão e esperança, sempre, né mesmo ? ? ?

Bjcs e parabéns, pela fértil e constante produção ! ! !
Léa

11:27 AM  
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11:04 PM  
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4:05 AM  
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7:56 AM  

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