quinta-feira, março 09, 2006



Bem-te-vi.

Da janela, observa-se um garoto assistindo cruel briga entre os pais. No olhar de cada um a morte rondando desesperada - uma cena prevista e há séculos repetida. O pobre menino assiste, sem poder interferir, espetáculo horrendo a corroer-lhe alma tão sofrida para sua pouca idade. Espelho se quebrando, vozes alteradas e pérolas espalhadas pelo chão – no dia seguinte a paz voltará a reinar no lar-doce-lar da nobreza humana. Enquanto isso, o garoto chora, soluça, para depois se recolher à triste condição imposta. Acaricia o gatinho que lhe traz abrigo nos momentos dolorosos. Triste gato, triste vida, triste...

Será que o meu passado, a minha meninice foi assim? Não lembro de nada, apenas de um casebre espatifado, onde habitam restos de memória salvos pelo tempo. Continuo sem resposta. Duas ou cinco namoradas, com elas conheci o sorriso, mas fui por todas deixado. Sem sequer saber a causa.
Acostumei a viver solitário. Nas manhãs encontrando fiel amigo: um bem-te-vi que soletra meu nome, da mesma forma que o próprio. Generosa alegria, pena tão fugaz – Bem-te-vi. Herculano. Deixo sempre água limpa e minúscula porção de comida, suficiente para nossa sobrevivência. E o resto do dia?
Com ajuda de um binóculo, meticuloso, acompanho o cotidiano de alguns vizinhos. Nada de novo acontece, pelo menos envelhecemos juntos – estranha maneira de relacionar-se. A minha. Recente, bem recente, comprei uma lente de aumento para adaptá-la ao binóculo, já que minha visão piora a olhos vistos.

Pontuo, agora, um casal de velhinhos aguardando o fim; embora ao tocar o telefone, eles renasçam. O filho que partiu e nunca mais voltou, ou a sobrinha jurando visitá-los – tudo fruto da minha reles imaginação. Como sou medroso, não me atrevo a oferecer-lhes um instante de convívio, quem sabe seria bom para os três. Algo me paralisa, nem um passo no sentido de tentar uma mudança – sou fiel ao meu amado bem-te-vi. A diferença consiste na nossa troca matutina: ele me dando pouco de alegria e música, e eu a prometer-lhe juras de eterna fidelidade.

O terceiro foi aquele que Teresa deu a mão. Deve chamar-se Teresa a moça em frente: insinuante, magra, corpo esbelto. Vários homens costumam visitá-la, desfrutando da sua carne – uns prometem voltar, outros de fato retornam. Confesso que me excito a maior parte do tempo. Adormeço de madrugada, troco as aventuras de Teresa pelo meu querido bem-te-vi que, sonoro e suave, desperta-me. Acaricio em pensamento sua presença, do jeito que me é possível.
Noite fria, a falta de uma brisa morna a desconfortar-me, incessante, puxo, então, o cobertor. Desisto de dormir. Escuto barulhos em demasia na casa de Teresa – corro atrás do meu binóculo. O que vejo? Ela sendo esfaqueada por um dos milhares homens com quem dorme. A única coisa a fazer é chamar a polícia, mas estou paralisado: como vou explicar. Podem me eleger o culpado. E se tiver sido eu? A dúvida me persegue, talvez eu seja condenado por espiar, sofregamente, vidas alheias.

Dia seguinte, o bem-te-vi não veio me ver. Chorei demais, vida acabou, amarga.
De noitinha entrego-me à polícia, interrogatório extenso demais. Lembro-me do nome Herculano apenas. Criminoso ou não? Nem eu sei. Virei notícia e página de jornal. E o pior, considerado inocente por falta de provas.


Ana Lia



Córrego triste

Era uma vez...

Córrego triste e solitário, ao léu, a sonhar por dias melhores. Seco, abandonado, disforme. Ninguém o olhava, nuvem sombria a esconder-lhe o monstruoso perfil, folhas e flores partidas. Mal do agreste sertão corroía-lhe o esqueleto, ossos à flor da pele -– sedento o córrego.

Tinga e Jacobina não se cansavam de rezar pelo Córrego, imaginando um bocado de águas mansas no belo leito de antes, respingos sorriam em paz. Mas nada de novo acontecia na região, furiosa a seca má, jogando fora as esperanças das índias. Que choravam, fartas, prantos e prantos, refrescando a tristeza. “Tadinho do Córrego – sequer uma lágrima de consolo.” Compaixão. De onde vinham as lágrimas? As explicações dos homens pouco adiantavam: conduto lacrimal, glândulas, etc. Magia da lágrima, indiazinhas insistiam, remando ao desconhecido e bravo mundo novo. Jururu, amigo de Tinga e Jacobina, a desencorajar os passos das aras. Jururu ressabiado, feioso, tristonho: caída a inexpressiva face, magricelo, fazendo jus ao nome. Elas deitavam-se no colo do Córrego, felizes: mantê-lo bem vivo, dádiva preciosa sob o sol de quarenta graus.

Sempre que bebiam água, guardavam uma porção para ele, banho mirim. Lembrete das namoradas persistentes. No meio da densa selva sergipana, retrato imperfeito do Brasil. Por aí vai a estória – enjeitadinha e preguiçosa. “Gosto da lágrima já trazia em si admirável frescor”. Aos olhos das sábias índias, os dizeres. Nem esse bem, Córrego possuía - de dar dó o pranto indecoroso, mar tão longe. Compaixão.

Veio um bichinho, repleto de encantos, visitar a floresta, parecendo uma cutia. Risos e risos. Desde o pouso, trouxe um punhado de bonanças à mata, aos outros animais, às flores. Logo chamaram-no de Sorriso, franco nas horas imprecisas, emprestando simpatia gostosa. A selva mais verde ficou, jeito de retribuir os carinhos, até a lua se arriscava num palpite. Enlace das águas? – Sorriso e Córrego juntos. Olhos nos olhos, deleite aguçando os semblantes, paisagem tranqüila e próspera no sertão nordestino. Milagre! Foram tantos os encontros, um sorriso na lapela, uma flor branca nascia.

Nascia no Córrego triste aberto agora à imensidão do mar azul. Sorriso, galante, inventou uma ponte elevadiça, que unia o Córrego ao oceano. Ponte Vermelha. Avalanche de águas jorravam, ébrias, no solo promissor – Córrego a renascer cristalino. Tinga e Jacobina cantarolavam incontinentes; Jururu, cismando jururu, com o fim do mundo. Sorriso falhou em querer outro destino ao pobre índio, nem tudo é possível, valeu a intenção. Brinde arrojado na selva refeita, gole de Maria clara (pinga do lugarejo) para os esperançosos, cachaça a ver navios. Tome uma, tome mais água, refrão de um sonho catimbeiro. Vai e volta, mergulhos interrompidos à sombra de uma palmeira, brisa morena da cor de Maíra.

Lágrima desabrocha livre – inundando os belos cenários da mata, Sorriso, valente e galanteador, olha a cheia ininterrupta, tão avassaladora quanto querida. Lágrima só existe após a dor de amar em paz. Sorriso, voluptuoso, reinventa a paixão eterna. Tinga e Jacobina a contemplar o risonho Córrego.

Branca a flor colada à concha tímida – relíquia voando céus e céus.

Era uma vez.

Ana Lia



Sonhos

Iracema, Yara, Judá – corpos lânguidos e largados a despir densa relva! Cenário desaguando no riacho florido, não fosse a aflição dentro do peito. Há tempos não sonhavam, noites mal dormidas - em frangalhos a alma. Perdida a imaginação, o sorriso, o fogoso e matreiro olhar. O que aconteceu? Roubaram os encantos dos jovens indiozinhos. Quem? Velha bruxa andava solta pela floresta, quebrando os galhos das árvores, um tal de vento marrom a soterrar sementes e plantios. Desesperados, os três queriam conhecer os mistérios dos sonhos: origem, evolução, infortúnios. Trazê-los de volta – sábios dos seus mandamentos.

Difícil e inglória tarefa, uma vez vitimados pela ausência deles, sem vestígios de idéias por onde começar. Corpos combalidos pela falta de brilho e coragem. Exaustos – infrutífero o desconfortável sono, como as folhas caindo no desalento. Ingrato o solo. Sombras e penhascos incontinentes, a gargalhar a miséria impune. Deusa da Maldade reinava sob a forma de bruxa, espalhando ciscos nos olhos dos serenos índios. Daquela brava terra brasileira, à margem do rio Negro, próximo ao sonhado paraíso. Costumeiras as lendas mestiças para assombrar deleites fantásticos, oriundos das belas índias férteis e prenhes.

Iracema, louca, via seu mundo em ruínas. Tez a envelhecer trágica, sem graça a vida, nem mesmo um pranto. Lágrimas fugiam, velozes, rio afora. Rudá emudecia, perdendo a sonora voz. Traiçoeira? Yara jorrava sangue do ventre, e da boca uma lástima em caracol. Disforme a índia frente aos demônios da Deusa. Foi-se o tempo da Vitória Régia.

Taciturnos os invernos mornos na negra selva, ensolarada a esperança cega, presságios e maus presságios. Recorreram os três à Deusa mãe – Ceci. Colo abrigo fonte. Encontro com as águas límpidas, turvas as maledicências de outrora, um pouco de brisa. Pouquinho.

Ceci, mansa, afirma que a resposta tão cobiçada sobre a origem do sonho repousa no coração turbulento de cada um. Sugere outra pergunta – razão e vontade dos sonhos? Novo o caminho? Lembra a Deusa mãe o sorriso interrompido, o vago olhar, a lágrima fortuita.

Queriam uma noite de sono legítima, para desvendar o porquê e o desejo dos sonhos. Impasse crucial – como refletir acerca de algo tão necessário, se os pensamentos tornaram-se quase automáticos. Beirando à espécie animal. Nesse ínterim, uma breve e opaca luz: preconceituosos em relação aos animais. Discernimento, afeto, e sobrevivência; sem relembrar infinitas qualidades outras, pertinentes aos anfitriões da mata. Acesso aos sonhos? Estaca zero o raciocínio dos índios!

Retornaram, perdidos, na suposta direção de casa. Desanimados. Vivos, apenas, com a aconchegante imagem de Ceci a cariciá-los – eterna. Iniciada a longa e duvidosa travessia, surge logo uma pequenina onça com cabelos de mel, balbuciando desconexos sons. Gestos a revelar fortes ímpetos em ser escutada. Mãos suplicavam um ombro amigo, pés às avessas, batimentos do coração em folia. Universo rodopiava, agora, ao redor do alvoroçado quarteto, uma borboleta azul a tudo assistindo. Camarote.

A minúscula onça ganhou o nome de Maíra – jovem guerreira a salvar os atributos da gigante floresta. Dois olhos adivinhos e a perseverança na aveludada pele. Maíra grata pelo feliz nome. Expressiva a face, adquiria sentido a trôpega fala, presenteando-lhes com uma estória.

Era uma vez

Um casal de fogosos índios apaixonaram-se vorazes e únicos, Itacira e Kiary, cujas famílias em constante pé de guerra. Inimigos imortais, diziam: “desde longínquas eras”. Onde o sonho era gente – retratada numa sábia mulher que se escondia do sol, embaixo de árvores encantadas. Encantos criados pelos feitiços dos Deuses da Esperança.

Sombra de Romeu e Julieta universal rondando os amantes.

Apesar das profundas adversidades, Kiary e Itacira viviam o esplendor da paixão, até mais não poderem! Escondidinhos e fartos. Durou um tempo infinito o amor, regado a lindas canções de bem-querer, e raros desencontros. Quase nenhum. Desafiavam perigosas alamedas, espalhadas pelo caudaloso Rio Negro, cujas águas guardavam os sonhos de Kiary e Itacira.

Rouca a voz de Maíra, precisava de trégua e repouso. Adormeceu. Os três indiozinhos cuidando, satisfeitos, o sono da onça. Mudos, ainda, o sorriso de Iracema, Rudá, Yara. Quase um dia de descanso, exaustas as cordas vocais da pequenina, toda a esperança do mundo retida em sua alma.

Despertou serena e bela, admirando a fé e a prontidão dos índios. Sentada, confortável, prossegue a estória; de longe a borboleta azul à espreita.

O inevitável aconteceu – Itacira grávida! Floresta clara e majestosa, céu esplêndido a perdoar os pecados mil, flores renasciam eloqüentes. Festas, festejos, festins. Assoberbados os Deuses lá em cima, brancas as nuvens delgadas, ventre de Itacira crescendo. Itacira e Kiary ousaram revelar a lenda em que viviam há séculos, lindo o amor que carregavam no colo, a imaginar uma reluzente mata verde.

Quis o destino uma desgraça, traindo-lhes sonhos e conquistas - morcegos machucavam as tenras crianças com ganância. Maus. Soltas as venenosas serpentes, macabras as cenas de tortura, colérica a barrenta lama do chão. Entanto, o ventre de Itacira avolumava-se mais e mais – medo? Nunca.

Numa madrugada primaveril nasce Moema.

Maíra, fatigada de novo, pedindo um cochilo rápidinho, aceito. Mais seis horas se foram – os três índios sabiam do valor em esperar! Reconfortada, Maíra continua. “Metade fêmea, outra metade semelhante a um tronco de árvore, a recém nascida. Estranha criatura. Itacira tomada de pânico, mal conseguindo aproximar-se da cria, Kiary perdeu a razão e a memória. Sumiu no, então, violento Rio Negro; nunca mais se ouviu falar dele. De sua cegueira, de sua errância, de seu malogro. Vingança das famílias, mantendo – acima do bem e do mal a soberana discórdia. A disseminar outros terríveis males: comprometimento de valiosos dons na alma dos homens. Lágrima, sorriso, olhar, sonho. Tempos em tempos soltavam poderosos ciscos de horror na floresta Amazônica, de acordo com os Deuses Vencidos, acompanhando o ciclo de vida dos justos sonhadores. O doce olhar do amante, o sorriso da flor, a lágrima da borboleta azul. Vingança, silenciosa, reinava fugaz e destemperada.” Sob o céu de Satã?

Maíra, ao terminar o relato, desmaia – transformando-se a onça num alvo lírio de marfim, enebriante o cheiro. Rios de lágrimas inundam a tirana selva.

Iracema, Rudá, Yara, adormecem serenos. Lua cheia recupera a alegria roubada, estrelas caem, radiantes, na nova floresta, sonhos cancioneiros refazem o sono dos indiozinhos. Sonhos redondos, audaciosos, e brancos. Até... Ceci repousa, tranqüila, à sombra de uma árvore mágica.
Borboleta azul, de todas as cores, levanta vôo perspicaz. De onde brotam os sonhos? Da imperiosa força de driblar os desencantos e misérias da selva?

Era uma vez.

Ana Lia

4 Comments:

Blogger lennylangley19223162 said...

Get any Desired College Degree, In less then 2 weeks.

Call this number now 24 hours a day 7 days a week (413) 208-3069

Get these Degrees NOW!!!

"BA", "BSc", "MA", "MSc", "MBA", "PHD",

Get everything within 2 weeks.
100% verifiable, this is a real deal

Act now you owe it to your future.

(413) 208-3069 call now 24 hours a day, 7 days a week.

3:16 AM  
Anonymous Sônia Plácido said...

Oi, Ana !
Copiei o comentário que a Sônia Plácido me enviou, pra cá, o lugar certo! Endosso -delicadeza em pintura- as palavras. Parabéns !!!
Bjcs, Léa

Alô, Lea!
Obrigada por ter enviado os textos do blog. Tentei várias vezes pelo endereço enviado anteriormente, mas não consegui. Gostei demais de ler os dois textos da Ana Lia intitulados: Bem-te-vi e Era uma vez. Era uma vez é de uma delicadeza muito grande na estrutura. As palavras parecem pintura de uma área sertaneja. Envie um abraço à Ana Lia!!
Abração,
Sonia
cohr@plugue.com.br

9:32 PM  
Anonymous Anônimo said...

What a great site »

8:23 AM  
Anonymous Anônimo said...

This is very interesting site... Lyrics i want your sex Casino com niagara Non drying acne cream South shore plastic surg take credit card over the web Cialis mail football rules Corporation taxes on grants from new york state chrysler neon http://www.anime-bikini-babes.info Dr ed becker exoderm face lift doctor plastic surgery Country kitchen home decor diet bontril electrical steroid drive tennis elbow Photos of a paintball field Hank hentai Breast enlargement implants Removing fatx harddrive

10:43 AM  

Postar um comentário

<< Home