sábado, dezembro 31, 2005




Matuto

Fala oralizante a percorrer agrestes matas? Extenso o país afortunado? De folguedos, misérias, brincadeiras – sonhando sempre um mundo melhor: justiceiros os heróis e bravos homens, extraindo do solo a generosa colheita, a cantiga de roda, o Bumba meu boi. Ensolarados pela abundante seca, adormecidos, entanto, debaixo de uma engenhosa viola, repentistas de coração e poesia. Matuto, encorajas meu limão meu limoeiro, que ninguém é de ferro.

Saudades colorem as ternas vestes, com que inventas um caminho, em busca de novas raízes para os seus. Balbucias, errante, o naufragado som das Pastorinhas – diante das malvadas descobertas no parco glossário, que, sequer, conta uma estória de amor e rendas. E a mulher rendeira? Em que porto ancorou o telúrico corpo? Maria, já longe vai. as ancas nuas, os cabelos de fogo, o matuto jeito de sorrir.

Colossais as mãos que trabalham, dias e dias, nos sombrios cativeiros do sertão – crus e nostálgicos. Cansadas as mãos, imaginando, secretas, o eco dos cocos embolados para atenuarem caboclas mágoas e desavenças, ao longo da silenciosa ira. Adivinhas, mandiocas, jumentos, lavouras, máximas, atiçam sonoros olhares dos endiabrados meninos em festa Natalina. Matutos os maldosos espantalhos a mascararem seculares pecados, dos Senhores de Engenho. Ou Capangas da morte? Cruz credo, cansadas as mãos.

Líricos os trovadores a improvisar loas e canções de ninar, prontas para os pequeninos anjos do Nordeste – verde que te quero verde? Fortes os laços e elos de sangue, renovados à cada seresta, madrugada adentro. O cheiro da cachaça traz ventania do mar, verbete necessário aos profetas retirantes, cúmplices nas falsas promessas. Amena a vigorosa brisa, insinuando a dança das cadeiras, alegre?

Quem me dera louvar a mais piegas das juras, implorando por um pouco de paz e chuva neste amontoado desfiladeiro, em chamas. Que se chama Cabral, que se chama solidão, que se chama vósmicê. E não atente para irmã Joana, ela vinga de uma só vez, removendo embrulhos e toadas. Nem pra vaca desdenhosa, magra feito defunto, leite que é bom – ela vomita pelo ladrão. Chame o dotô: apressado come mal, jorrando fome na mansa maré, enjeitada qual Pai Francisco...

Ana Lia


Mudo o diálogo?

Palavras – ao léu, tragadas pelo vento, soltas no imenso azul do céu. Ventania comovente a guiar-lhes o destino. Desnecessárias, perturbando inúmeras vezes a precária conversa entre homens e mulheres.

Frágil a condição humana e também temerária.

Amoroso olhar (mão e contra mão), simples e sonhado afago, ilustres carícias a imprimirem contornos no corpo querido. Terno universo próximo ao paraíso dos contos de fadas, das eternas quaresmeiras, das indecentes trocas de olhares. Palavras voam nas íntimas imagens desenhadas na voragem das paixões: efêmeras, alucinadas, permanentes.

Quero beijar-te infinitas vezes – delírio do meu amanhecer. Como e com que palavras falar-te-ei deste imponderável anseio. De que servem veementes declarações? Basta um olhar e nada mais, um gesto com a mão cheirando à lírios e travessuras, um toque na tez morena dos lábios teus. Juras passam, olhares permanecem. Emoldurados tal relíquias precisas e preciosas, guardadas bem no fundo do pecaminoso mar. Pecaminoso de tão belo: matizes azuis de todas as cores, espelhando o céu lá em cima.

Navegar em tuas belas canções – feito um aprendiz de noctívagas baladas. Trovador mergulhado no grande oceano, terra das meretrizes e rainhas. Sereias enebriadas pelas tempestivas ondas prateadas, semeando corais e algas.
Navegar no ritmo teu – sonoro e cadenciado o poema submerso há séculos lá no fundo de nossas proezas. Batuque preservado “ao som do mar e à luz do céu profundo”. Raízes que nos pertencem: juntos navegarmos cúmplices.

Sonhar os sonhos teus – mudos numa afável cadeira de balanço, recordando inesquecíveis encontros, raras as traições, alguns benditos tropeços. Assim o nosso mudo diálogo ganha força. Força e limpidez, percorrendo de norte a sul reentrâncias e abismos a nos seduzir. Eternamente.

Ana Lia.