quinta-feira, dezembro 01, 2005



CAIXOTE


De nome, não se fez conhecido. Veio do mar nordestino. De
qualquer madeira traçava enlevos. Arengava modelos alheios. Daí transformar
em moderníssimo banco, em exposição na Prefeitura, caixotes emendados. Não
gostou das homenagens. Cortejava o silêncio. Conversava bem com serrote,
formão e outros aviamentos. Desconstruiu um sem número de caixotes:
valeu-lhe o apelido! Telas de cânhamo recebiam trançadas molduras. Seu
Manoel mesmo, amigo da oficina mecânica, tinha uma delas: cascas de árvores
e ripas de vários feitios. Não cortava madeira de primeiro uso. Rebrincava!
Da porta de um casarão, fez sua mesa. Seu Manoel achava o amigo uma ilha
igual a ele próprio. Só dava braços pra árvores; no mais, água plena.
Começou a fazer mobília pra casar. Não teve espaço pra levantar casa. Foi
morar no barraco. Não deu certo com a moça de idéias feitas. Ela, toda
cidade. Queria trabalhar no centro, em loja dele. Dizia-lhe seduzidas
palavras, vê-se logo, você é artista, tem que se mostrar, viver com a fama e
correr mundo. Descasou, sem ter casado. Fugiu de casa que não era sua.
Deixou-lhe os móveis. Ela vendeu e foi morar longe dali. Aproximou-se do
mar, sem ser pescador. Trocou armário arqueológico por carro velho de seu
Manoel. Conheceu Helga cuja língua era incompreensível, mas de muito amor
cantaram (cantigas em alemão, ele as achava lindo!). Fazia, também, bom
peixe na brasa, pirão e mais no forno desvestido do velho carro. Depois
aprendeu sozinha aqueles desenhos debruçados de superfícies e inventava
outros.
Seu Manoel passou na praia e viu os dois na nova casa. De
madeira firme e imensidão de água. Portas e janelas incríveis e uma varanda
em toda volta...

O nome CAIXOTE flutuava, ancorado no azul castiço dos olhos da
moça. Que se derramavam.


Léa Madureira

4 Comments:

Anonymous Léa Madureira said...

Oi, gente !

Não consegui "formatar" o texto. Mas espero que isso não atrapalhe muito o entendimento do mesmo. Que, enfim, era todo um só bloco , à excessão do último parágrafo, já em separado. Perdoem-me a falta de intimidade com o "engenho", na hora de fazer a "cópia" da página de Os vinte e sete degraus (contos), de onde foi extraído,
Léa Madureira

2:21 PM  
Anonymous Marilia Mota said...

Parabéns, Lea. Parabéns Ana Lia. Benvindas à globosfera. Sucesso. Beijos,
Marilia

10:13 PM  
Anonymous Anônimo said...

Very nice site! » » »

10:02 PM  
Anonymous Anônimo said...

This is very interesting site... » » »

1:50 AM  

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