segunda-feira, novembro 07, 2005




Quem me dera...

Ser brega um só minuto em minha vida. Fazer do pequenino retalho uma linda almofada, coroar meu reino de formigas com um doce e poderoso emblema, pôr na lixeira um monte de inúteis recordações. Ajoelhar-me, quantas vezes preciso, diante do Cristo Redentor. Orações piégas ao São Benedito, ao espírito santo, ao menino Jesus – rezadas de joelhos na mais honrosa paz. Nem que, de mentirinha, desse um ponta pé no diabo. Com louvor, muita groselha, e um candelabro lusitano. Reverenciar a Miss Brasil, a locutora do rádio, a Neide Maria – em prol dos verdes mares. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Continuar a breguice por dois minutos ainda. Fazer do valente moleque saci um real escudeiro, coroar a mãe benta de beijinhos e creme achocolatado, pôr na feia espinha do meu rosto um chá de esperança. Ajoelhar-me, devagarinho, em frente ao altar, onde Neide Maria foi batizada um dia. Ouvir a novela “Jerônimo herói do sertão”, infinitas vezes, narrada pelo tio Pasmo. Uma poesia para Aninha de encomenda. Um punhado de pomada Pond’s nas rugas da mamãe lá no céu; para Nossa Senhora também. Inventar uma cantiga milagrosa, que salvasse os homens de boa vontade. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Quem me dera todo o tempo do mundo! Para ser sempre o mais brega das peladas domingueiras – casa bendita do Tio Pasmo. A tirar o leite fresco das vacas, escondidinho dos bois livres no pasto. Assombrado com o santo e primeiro pecado meu, gostoso demais a presença da fé. Feita com a voz saudosa do perdão. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Ana Lia