domingo, novembro 06, 2005



Imaginando o mar e a preguiça.

Nunca o conheci – desgraça festiva transfigurando manhãs de sol em negras madrugadas estáticas. Príncipes e donzelas descrevem o imponderável mergulho: tantas vezes sem volta. Braçadas, corais, ondas. Estrangeiras as mendigas afogadas no triste mar. Imagino suas vértebras, suas catedrais, seus poemas – caudalosas e agonizantes as mágoas.

Apenas rios, riachos, cachoeiras, a navegar na alma escorregadia que porto córrego abaixo. Outrora aveludado de risos e gangorras. Turvas as seculares águas ao lado meu. Enlameado o chão. Lesmas submersas – subvertidas. Fatigado: inconstantes pés adoecendo. Constante a trapaça da terra, ingrato o solo da mãe gentil. Amada pátria?

Mar: quero e quero a razão, o devaneio, o sonho, dos enluarados navegantes profetizando âncoras e telúricos jogos na busca do amor teu. Demoníaco ou angelical. Quase nada importa – conhecer-te por inteiro, feito um vulcão de prata, em chamas. Chamas inocentes e mentirosas, a reinventar o acaso. Demolido.

Não fujas de mim, ò mar de tanta magia. Sou um retirante qualquer, sem juízo porém crédulo; viajante trôpego e maltrapilho de vestes inconsoláveis. Irrita-me o sabor interrompido dos rios, rindo dos amores meus. Anseio a solitária presença de peixes e pescadores, juntos, na triunfante epopéia movida à brisa e fuzis.

Luta nas almas, nos isolados corpos de fariseus e cangaceiros – em alto mar. Violentas facadas, imunes tréguas, carnificina geral. Mar vestido de vermelho, invadindo arranha céus e avenidas. Distantes do agreste mundo meu. Medo a corroer-me vagarinho por dentro; coração selvagem de cetim, purpurina, lantejoula? Em frangalhos lancinantes... Anáguas!

Anáguas de bronze no varal do vizinho – pobre rapaz. Cedo, trucidado por uma raivosa lesma, trazendo como lema (infeliz homem) a sorte de conhecer o mar. Perdera a fronte de guerreiro, abandonando armas, garra e o santo espírito. Sertanejo sem sertão. Armada a luta entre fracos e fortes? Luta armada? Nó na emparedada luz. Paredes semelhantes a esburacados pisos, minguando a carruagem de antigos reinos.

Santarém - lá conheci meu primeiro amor. Em versos.

Cardumes e cardumes, a inundarem-me o corpo de suores e lágrimas; catarse incessante de peixes, esponjas, manjubas. Em fila indiana: dando adeus às gaivotas, às jibóias, às notas musicais. Sonoro o repentista da minha terra, onde não canta mais o trovador. Nem...

Gente – conheci o mar! E a preguiça? Amanhã ou nunca.

Ana Lia., Marinha.

5 Comments:

Anonymous Anônimo said...

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5:25 PM  
Anonymous Léa Madureira said...

Oi, Ana Lia !
"Anáguas de bronze no varal do vizinho(...)Sonoro repentista da minha terra."
E a gente embarca na sonoridade do texto e vai junto conhecer o mar fértil em imagens, cardume de idéias em caudal.
Adorei esse, também.
Bjcs, Léa

2:08 AM  
Anonymous Anônimo said...

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