quarta-feira, outubro 12, 2005


Sereno o mar

A perdoar nossos prosaicos pecados primaveris, gotejando lágrimas azuis – tantas as desventuras sombreadas, os rarefeitos sonhos de linho, as imponderáveis águas de março. Neste solo gentil imagino a ilha de marfim, indecorosa, nua no sereno mar. Marinho. Arrebatador na história, devasso no tropeço, tranqüilo agora. Olhos de preguiça acolhem as enigmáticas canções de Maria. O perfume que roubam de ti.

Sei que há léguas a nos separar. Tanto mar, tanto mar. Sei também quanto é preciso, pá. Navegar, navegar.

A prescindir de nossas inacabadas lutas outonais, viúvas as guerrilhas de sangue, lapidando contornos e crenças. Imperfeitos os girassóis da louca deusa – em busca de um sentido qualquer, que, graciosos, temem uma réplica. De mentirinha. Sereno o mar, enternecendo os imersos marujos lá no fundo, desassossegados e curiosos com as soturnas vilãs soltas. Ainda. Tão perto a brisa vergueira, tamanhos os alentos, enfim.

Sei que estás em festa, pá. Fico contente, e enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim.

A acalmar as turbulentas ondas de prata, perdidas no estreito inverno negro, emblemáticas. Sublimes e sarcásticas as nobres sereias de papel – desenham a vaga dança do Adeus. Esboço de uma desgovernada traineira ancorando no sereno mar. De feitiço as acrobacias das ousadas velas ao vento. Quero um romance de aço, quero um cálice branco, quero um deleite sagaz e eterno. Não quero mais as longas noites insones!

Lá faz primavera, pá. Cá estou doente, manda urgentemente algum cheirinho de alecrim.

A florescer no jardim entumecido e azul, naufragado feliz no esplêndido verão das nossas raízes, onde o samba cadenciou certo. Palma da minha mão – acesa a folia do Carnaval, embriagada a veste de colombina, o pierrô apaixonado. Quem dera um coral vermelho nas sôfregas manhãs mornas, uma lavanda de alfazema, um desatinado gosto de marmelo. Tulipas, sorrateiras, nascem soberbas no sereno mar. Adormecido.

Ana Lia.



Mãe
Renata Valle

Minha mãe nunca falou sobre minha vinda a este mundo. Não sei se germinei de semente, saí do saco de algum canguru fêmea, semeei no vento, explosão de planetas no espaço sideral, cataclismo, boneca de pano bordada pela avó, ou, simplesmente, brotei em seu ventre fértil e limpo de menina.

Não sei quando nasci, nem onde. Não sei quem foi meu pai. Se homem, se mulher, se fui feita pela união de dois corpos, ou pelos fluidos de um corpo só. Tampouco se cresci nas carnes, entranhas, estranhas, ou em laboratório, tubo de ensaio, corta daqui e cola acolá, quebra cabeças de coisas que se amontoam, tipo Frankstein: ser humano montado de restos: cabeça de liquidificador, coração de gelatina, no estômago uma batedeira, mãos de espanador.

Minha mãe nunca falou sobre irmãos, família, heranças e parentes — ainda que distantes. Deixou-me humilde legado: ensinou-me a sorver o líquido da vida, pronunciar alguns sons, a dar os primeiros passos — em princípio vacilantes — e deu o impulso que fez o carrossel girar. Deixou-me ali querendo chorar, cavalos coloridos: bocas pintadas, crinas verdes, azuis e amarelas, sorrindo de desespero e rodando sem parar. Deixou que eu girasse sozinha, entonteci, quase caí, mas não chorei e acostumei a ver o mudo girar.

Lembro-me das mãos macias acarinhando-me olhos, cabelos, preparando-me pratos de feijão e arroz. Cheiros de leite e perfume de alfazema.

Minha mãe nunca me falou de amor. Não disse se realmente existe, se posso tocá-lo, comprar em supermercado ou farmácia, à vista ou a prazo, se entregam em casa e chega ainda quente. Não explicou se é líquido, sólido ou gasoso, se é verdade ou mentira, como tantas que contam por aí.

Nunca me falou do céu e das nuvens, e se há um Deus, e se há algo que ele possa fazer para ajudar. Minha mãe nunca me explicou onde mora essa tal de morte, se mais para o sul ou quem sabe ao norte, se vai, se volta, se dói, onde posso procurar. E se alguém bater na porta de casa à noite, o que digo, pergunto, se atiro ou esmurro, se atendo ou deixo a campainha tocar.

Assim foi que, em um dia de procissão, toda a gente vestida de vermelho a cantar e rezar, um Santo com o corpo cravado de flechas me olhava, parecia-me que chorava, sofria. Minha mãe pegou-me pelo braço e entregou-me à vizinha — velha sem dentes, temia que fosse bruxa. Deixou-me seguir com a outra até o final. Olhava o santo e chorava com ele. Minhas as flechas.

Tive medo, ela se afastou — nada disse, nem olhou para trás e sumiu-se no meio da multidão, perdeu-se por entre as velas acesas. Perdi seu cheiro no cheiro de cera queimando. Perdi seus olhos tristes entre os olhos curiosos que me olhavam. Foi-se para sempre. Esqueceu-se de voltar para me buscar com a senhora — que não era bruxa — e falar-me de tudo que ainda carecia explicar e levar-me com ela para qualquer lugar. Minha mãe nunca me disse o que deveria fazer quando ela fosse embora, virando neblina, fumaça.

Cresci imaginando respostas para os não ditos de mamãe, tentando decifrar seus silêncios. De vez em quando acompanho a procissão na esperança de achá-la perdida a me procurar. De vez em quando o rádio entoa uma canção e me lembra da canção que ela assobiava. Muito baixo, baixinho mesmo para ninguém ouvir. Faço um esforço enorme, quase sem respirar, para fazer silêncio e concentrar-me em sua doce melodia. Minha mãe virou poeira, pipa voada para longe, balão sumido no horizonte.

3 Comments:

Anonymous Léa Madureira G. Lima said...

Oi, Renata, parabéns ! ! !

Esse texto "é um primor" ! Um dos mais belos que já li sobre o tema da maternidade! ! ! De uma sensibilidade escancarada e de grande riqueza literária. Tá se vendo que é de alguém com a sangria da paixão e garra pelo ato de escrever. E nessa luta constante em que algumas vezes se chega lá, você chegou, ao encontrar o caminho que te escolheu !
Aliste-se pra sempre, inda que nuvens possam pesar-te. Elas passarão ! Pode confiar !
Bjcs, Léa Madureira

2:10 PM  
Anonymous Léa Madureira G. Lima said...

Oi, Renata, parabéns ! ! !

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2:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

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2:37 AM  

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