segunda-feira, outubro 31, 2005


Feinha

Filha dileta e fiel do mais que perfeito dos casais – Bonança, sobrenome de cabeceira.

Nasci encurvada, meio torta, caçulinha. Faz mal não! Quase defeituosa, quase temporã, quase tudo: cuido, satisfeita, dos meus pais, adivinhando vontades e queixumes dos dois, divido o coração, agora, em três rigorosas instâncias. Já ia me esquecendo, casei-me com Silvio, cirurgião dentista do bairro. Um pouco chato, diziam as más línguas, mas para mim... Nem pensava em homem, quanto mais casar, dei até sorte – generosa comigo a vida. Sempre reverenciei aqueles que me botaram no mundo, bondosos demais, rosas os vestidinhos herdados pela mana cinco anos mais velha. Vim para concluir a prole de sete, número da sorte e da mentira, gostei. Desde bem cedo, soube dos meus desastrosos dotes físicos (corcundinha!), fingindo não percebê-los, para salvar o soneto da emenda. Fui clara? Ou a emenda do soneto – nem sei mais. Coitados dos paizinhos, nada a ver com o maldoso destino, aprendi os afazeres da casa. Para melhor servir a todos, custei a entender-lhes as mazelas, lento o raciocínio meu. Além do mais, muito míope, demoraram a descobrir. Para quase tudo tem-se uma saída, eficientes as lentes de contato, que alterno com óculos. Jamais sobrecarregar a vista e a visão. Estudei sem nunca repetir ano, nem um mísero rasgo de desobediência, dei certo. Quase uma santa. Afeiçoei-me à Nossa Senhora dos Devotos, prometendo doar de volta as dádivas do Deus Onipresente, servil o testemunho meu.
Na escola, apelidaram-me de carola, inveja da dedicação que eu mostrava enorme, sem nada pedir em troca. Nas horas vagas ajudava na secretaria, não perdia tempo com namoradinhos, vantagens e desvantagens – como tudo na vida. Feinha. Acompanhei, cúmplice, tempos das vacas gordas do meu pai. Defensor dos mais carentes, exemplar advogado, nem sempre vitorioso. Das magras vacas, igualmente aos seus pés, dividindo o pão e a tristeza: ancorados na genuína fé.
Com os irmãos de sangue, relação desencontrada, pouco o convívio – cada um protegia, fervoroso, seu quinhão. Sequer motivo de controvérsia, pra que? chateá os pais, cada qual trilha o próprio caminho, nem todos os gatos são pardos! Freira Josefa me ensinou este dito popular. Emprego risonha. O mano mais velho deu de beber, o segundo morreu, os outros, graças a Deus, ergueram a vida, constituindo famílias. Nascida para ser solteirona, deslumbrei-me ao enxergar – miopemente – Silvio soltando a franga pra mim. Ilusão de Ótica? Bendito cuidador de dentes a oferecer-me carinho e alegria. Agradecemos a todos santos do mundo, milagres existem, repetia a falecida avó.

Silvio: louvável homem do trabalho, mãos marcadas para vencer, salvava os males dos dentes e da boca. Cirurgião dentista – vale quanto pesa o sacrifício, horas e horas estudando, em dia com as inusitadas técnicas modernas. Altruísta de fazer gosto, ensinava aos novos o precioso ofício, excelente professor.
Meio surdo desde moleque, falava baixinho para não chamar a atenção, más as lendas que corriam. Surdos falam alto porque não atinam para a própria voz. A mãe dele deu de massacrar a crença, ensinando o gentil filho a falar baixo, devagar, calmo.
Então Silvio quase lacônico, tímido, de poucos amigos. Com exceção dos inúmeros clientes – verdadeiros irmãos no sentido iluminado da palavra. Filho único o meu marido, sofria desse mal, nem tudo é perfeito. Refrão conciliador a solidificar as amarguras da precária alma minha, junto com o recorrente quase.
Filhos, não o tivemos. Exigir em excesso da gente – que, mui graciosamente, atendíamos aos nossos pais, em primeiro lugar, doravante. Subentendida a pouca prática do amor. Gostávamos de ficar em casa nas horas de lazer: noticiários, novelas, documentários. Futebol sagrado aos Domingos, Silvio torcia desenfreado pelo América, sofrendo feito boi ladrão, à cada derrota. Bastante comum. Talvez ele se permitisse viver no esporte todas as emoções freadas, e eu no vasinho de violeta na cabeceira. Oferecíamos um largo lanche ao anoitecer de Domingo à nossa família. Íamos à missa tão logo amanhecesse o Sábado, nunca me perguntei a razão, nenhuma diferença fazia.

Econômicos em todos sentidos – Feinha e Silvio.

Eis que do nada surgiu uma temperança em mim, Silvio ia completar quarenta anos, apesar dos cabelos brancos já presentes em abundância, eu imaginando uma festa surpresa. Tão longe e inverossímil dos padrões vigentes até então. Aconselhei-me com mamãe, quase a implorar perdão pela absurda idéia, ela, sábia, em silêncio retirou-se da cena. “Você é quem sabe”, vazia a frase?
Procurei, em seguida, uma freira amiga, que, sorridente, adorou a invenção. Quase morri de susto, de medo, de vergonhazinha. Lá no fundo, ponta luminosa de vaidade renascia lânguida, tanto tempo reclusa – trinta e oito anos resignados.
Iniciei a fantástica aventura, infinitos os percalços no caminho, mas nada se opunha à minha insensata escolha. Silvio quase não tinha amigos, questão absoluta em manter firme distância dos prováveis companheiros, salvo os clientes! Embora mal os visse fora do consultório, entanto ciente das últimas novidades particulares de cada um, gerenciando, afável, sabores e infortúnios alheios.
Percorri a sua agenda com afinco, do começo ao fim, eleitos cinco casais amigos. Acesa e atenta, telefonei para as esposas: um já tinha morrido, outro largado a mulher na pior, e os restantes ficaram de vir. Sem compreenderem o porquê dos convites. Ufa, alívio. Pensei nos vizinhos, desisti logo, Silvio fora síndico recente e conseguira alguns desafetos. Contava, solícita, com grande parte da Igreja, família, colegas de trabalho? Sei lá. E os clientes? Dúvida cruel a perturbar-me cansativas noites de sono. Bem ou mal, eu nascia para o inquieto e desordenado mundo - às avessas? Silvio sequer desconfiava, meus olhos em nada o comoviam, a fala emudecia gradativa...
Contratei o buffet, ardente, melhor possível: whisky escocês, vinhos (branco e tinto), refrigerantes, cervejas, batidas, sucos, e até sangria. Salgadinhos quentes, mousses, canapés frios, tábua de queijos. Bolinho de bacalhau de montão, Silvio amava como ninguém. Os olhos da cara o serviço, quase que dou para trás, qual nadinha. Vendi jóias antigas e de família, outras empenhei, um só empréstimo no banco. A festa parecia minha, a cada empreitada o sublime coração meu revigorado, tantas as novidades e descobertas. Quase quarentona!
Encomendei o bolo e os docinhos. Queria enfeitá-lo com uma digna cadeira de dentista com os usuais apetrechos. A doceira pigarreou um pouquinho, mas como o pagamento era antecipado, engoliu seco. O que dinheiro não compra? Rápidos o aprendizado e o raciocínio, antes lentos, renovados um dia depois do outro. Passei a sorrir de contentamento para todos – a maioria das pessoas estranhavam. Docinhos, escolhi os mais comuns mesmo, doce engorda e faz mal. Quando eu já estava na porta, a mulher me chamou: onde vamos colocar as quarenta velas no bolo? Invente, respondi alegre, problema dela ora.

Vez por outra, nuvens negras atrapalhavam o belo cenário, ao imaginar a reação do Silvio. Depressa, ia confessar os pecados...

Comprei um discreto vestido preto, bem fiel à minha sóbria maneira de ser. No máximo um colarzinho de pérolas barrocas. Marquei, bastante antecedência, o cabeleireiro e as unhas. Diferente o corte, suaves mechas douradas, coral o esmalte – medo da persistente nuvem negra a confrontar-me o céu azul. Brilhoso.
Restavam ainda os maravilhosos arranjos de flores, mas só no dia, bem frescos. Vasinho de violeta pobre e sem graça, comparado às divinas encomendas! Escondi uns enfeites novos para a sala na casa da minha sogra. Também umas almofadas orientais e vislumbrantes. Quase tudo pronto – Feinha bonita de dar inveja e dó. Inda que tarde, descobria o prazer, o pecado, a malícia, efêmeras quinquilharias deixadas ao léu.
“Sou, sempre, mais eu, no embriagado reino do céu” – refrão inédito da fogosa Feinha.

Chegado o dia ou melhor a véspera: Feinha mal dormia, Silvio roncava desembestado, ruidoso. A esposa nunca percebera antes o desarmônico som do maridinho, apressou-se de raiva. Qual o quê, desenganos e reticências da suspeita vida, agora. Logo o sol clareou a manhã, nem todos os gatos eram pardos – ufa.
Depois de pronta no salão de beleza, gostou do que viu no espelho. Sorriu. De encontro às belas flores, último quesito, assim imaginava Feinha...

Caminhando de volta à casa, cheia de arranjos no colo, tropeçava na própria sombra. Um nobre cavalheiro, de prontidão, ofereceu-se em ajudá-la. Devorou-lhe o semblante, o corpo, as minúsculas sutilezas, como ninguém o fizera antes. Olhos nos olhos. Feinha esqueceu-se da festa, do Silvio, da infeliz vida de outrora.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Feinha, seqüestrada por um estrangeiro ou malandro, tanto faz...

Ana Lia.

3 Comments:

Blogger Roberto Iza Valdes said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

3:26 PM  
Anonymous Anônimo said...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it History of icrowave ovens Eastbay sport prozac used R s60 volvo Barcode wireless scanner application diagram Couples echangistes amateurs forum kia sportage Stock accord floor mats Curio cabinets contemporary

2:52 AM  
Anonymous Anônimo said...

Keep up the good work film editing schools

12:07 PM  

Postar um comentário

<< Home