sábado, outubro 29, 2005



Dedo mindinho

Pedro cansava-se com freqüência em, apenas, ser mais um perdido na multidão. Igual aos outros rapazes de dezesseis anos: mesmas dúvidas, hábitos, e fugazes anseios. Anseios que se evaporavam na manhã seguinte, sem deixar vestígios, empobrecendo tão tedioso coração.
Afirmavam os pais, convictos, que se tratavam de características da idade. Escolhas e mais escolhas pela frente. De fato, Pedro fazia bem – de tudo um pouco: jogava futebol, namorava, estudava, matava aula, mentia, bebia (em excesso, vez por outra), passeava com o cachorro, tocava violão. Igualzinho a milhares de Pedros na cidade.
Mas desconhecia a paixão, a volúpia, o exagero – alguma coisa em seus atributos que o diferenciasse dos outros. Mínima a fatia que lhe cabia neste vasto mundo: invisível, pouco maleável, indiferente. Pés e passos arraigados ao chão em demasia. Não conhecia o vôo equilibrista dos amantes, tampouco as profundezas do rebelde mar. Somente o azul celeste, estrelas de todas as noites, alguns pingos de chuva – e nada mais.
Sem nada esperar, resolve aderir à tatuagem. Auge da moda, mais uma reles imitação? Será?
Pedro escolhe o dedo mindinho como parte do corpo para guardar a sua marca. Marca inovadora dos novos tempos: um belo pássaro vermelho aterrissando fogoso de um inequívoco sonho de amor. Imponderáveis canções remoendo alma tão inquieta!

“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem, que é para te dar coragem pra seguir viagem, quando a noite vem.”

Desde então, saltava aos olhos a desassossegada folia, permeando o itinerante caminho de Pedro. Corpo a ganhar vozes e sonhos – embalados por avencas, madrigais, serpentinas. Inesperadas as ágeis paixões, pulsionando as entranhas do ainda jovem menino. Gentil a alma alada, inda que soturna na longa travessia pela frente. Eterna nos olhos do virtuoso pássaro de fogo, construindo estórias e avenidas no adormecer de Pedro. Aventuras a assolar o antigo cotidiano soterrado no jardim de outrora. Que, sequer, reclama – nem um pequenino suspiro.
Entre infindáveis estrelas, a de Pedro iluminando o universo por inteiro.

“E nos músculos exaustos do teu braço! Repousar frouxa, murcha, farta. Morta de cansaço. Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva...”

Ana Lia.

4 Comments:

Anonymous Luiz Guerra said...

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6:43 PM  
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