sábado, setembro 10, 2005

O pescador de estrelas

O PESCADOR DE ESTRELAS


Dormitava na praia o pescador de estrelas. A culpada fora a noite que, de tão bela, lhe trouxera novamente sua velha solidão inesquecível. Assim, embalado pelo marulhar das ondas, ele adormece, protegendo com cuidado os astros que pescara. Quanto tempo passou assim? Como saber? Apenas, ia já a Lua alta, quando, sacudido pela força de um perfume, ele estremece ao roçar de alguns cabelos. Abre os olhos. Quem era? E que importa? Entendem-se num olhar... Ele oferece-lhe as estrelas. Depois de fitá-las largamente e com um olhar profundo, ela faz um sorriso e, com carinho, coloca-as entre os seios... Juntos, deitam-se na praia. A mansidão morna da noite envolve-os como a compreensão de um velho pai. E um silêncio enorme, como o bocejo de um gigante, prolonga-se pelo céu, estende-se sobre o mar e, rolando na crista das ondas, chega preguiçosamente às areias. A noite cheira à suavidade penetrante de um perfume oriental.
Sozinhos. Ele, de olhos fixos naqueles cabelos cor de ouro, que a Lua não faz que pratear, pela primeira vez esquece passado e futuro e saboreia fartamente o simples gosto do presente ...
À mesma hora, na noite seguinte, ela voltou. Sentou-se com os pés ao alcance das ondas. Curiosa, esperava que ele mergulhasse as mãos nas algibeiras e trouxesse de volta uma pequena multidão de luzes. Como crianças, brincavam: derramavam as estrelas sobre si e corriam, corriam, deixando-as cair sobre as areias, para serem molhadas pelo mar...
Assim foi. Assim é até hoje: encontram-se na praia; ele troca com ela os astros que pescou.
Se amanhã será assim? Quem o sabe? Na verdade, nem ele sabe ao certo quem são aqueles cabelos, que, sob a Lua, lhe recordam o Sol, e aqueles olhos verdes, que se confundem com o mar. Na verdade, ele nunca lhe perguntou se ela virá amanhã; ela tampouco.
Talvez o melhor de tudo seja a certeza de que pouco lhes importa toda a incerteza.
De tudo? Não. O melhor de tudo é ele ter podido, um dia, compartilhar com alguém as estrelas que pescou.

Rio de Janeiro, 15/03/1963


Luís César de Miranda Ebraico