quinta-feira, setembro 15, 2005

Negro o céu

A coroar desânimos e estrelas, vulneráveis aos retratos vindos lá de cima, revelando obscenas, ingratas, pérfidas, cenas de um mau negócio. Casamentos, em fúria, protegem desenganadas torturas de um insosso feijão com arroz. Amanteigado e infiel. Negros os cálices de sangue da Santa Ceia – vazios, efêmeros, perdoáveis entanto. Procuram, salientes, o meigo céu de outrora, azulado no sonho e na febre.

A prevenir maldades e falcatruas, róseas nas virtudes, nas aparências, nas vitrines, destilando veneno em água benta. Desfilam as venenosas favas, desnutridas de qualquer valor, ignoradas com desprezo e calúnia pelos bravos homens de brinquedo. Bonecos descartáveis, fantasiados de piratas, reis, jardineiros, fingindo a dança de salão – em moda nas inquietas noites de Cabíria. Volúpias?

A retribuir inoportunas leis de mentira, vigorando, firmes, na cidade luz dos meus sonhos – fantasmas e demônios perseguem, a sangue frio, o que ainda restou dos escombros em folia. Negro o céu do edifício naufragando diante de míopes olhos, assimétricos. A festa insiste em iludir a platéia absurda e caótica, incendiária a saída, comovente a pilhéria. Pobres retribuem com a fatia mais gorda do vendaval, recorrente o pesadelo!

A confinar provérbios e ditos, sábios um dia – desenhando esperança nas calmas águas da paisagem. Presos os mistérios, as profecias, os romances: interrompidas e jogadas ao léu as vivas estórias de reinados em deslize. Tortuosa a linha matriz que nos delineia, neste vasto oceano vermelho. Negro o céu a nos confinar, estático o caminho em frente, vulneráveis passos e sombras deixados. Rastros invisíveis? Intactos.

A persistir teimoso e grande nas mínimas entrelinhas de nossas canções, vestidas de organza – lenços, enfeites, laços, de seda pura. Poetas nobres recitando dias ensolarados, noites brancas, sutis madrugadas. A vida como ela não é. Negro o céu a nos irradiar venturas e bonanças, para além da linha do horizonte, bem perto do paraíso. Sonho ou alucino? Nem sei mais com quantos paus se faz uma canoa.

Negro o céu!

Ana Lia.