quinta-feira, agosto 25, 2005

Retratos



Vez por ano Maria deixava João com o casal de gêmeos, sozinhos, para – confiante – visitar seu passado em Parati. Pequeninos os filhos para se locomoverem, além do dinheiro curto e a necessidade imperiosa de adquirir mais força, luz, imaginação para renovar a vida. Para isso, jornadas de silêncio e paz. Revigorada! Sábio marido: respeitava, admirando os vitais anseios da mulher. Sobretudo, confiava em Maria.
A agilidade nas mãos (marca da família), geração em geração, sustentava há décadas a confecção de trançados com material da própria mata. Fotografia. Folhas, raízes e cipós. Infinidade de objetos criados: cestas, abanadores, peixes, como exemplo. Bom frisar – a necessidade, principal motivo para a feitura das peças.
Maria, crença enraizada em ter nascido com este dom graças à tradição dos seus antepassados.
No Rio tratou, o casal, de dar continuidade ao que receberam de mãos beijadas. Abriram em Santa Teresa uma loja de artesanato. Similar às de Parati. Nomearam-na de "Guianás", primeira tribo de índios a habitarem Parati. João e Maria investiram fundo na herança e na idéia. No início penaram, mas valeu! As marcas afetivas contribuíram demais. Deu certo. Certíssimo. E como!!!
Amiga de infância de Maria - Clarice - veio ajudá-los. Capaz e prática, logo arrumou uma babá para os gêmeos. Desquitada, sem filhos, impressão de não precisar de ninguém. Eficiente. Fotografia. Meio dona da verdade, o que irritava João. Maria achava graça, alegando ciúme do marido. Por serem amigas de longa data. Embora bem diferentes, uma objetiva mas sem capacidade para sonhar, a outra mais sensível e com vasta vida interior. As diferenças se completavam. Mas até que ponto? Em parte João tinha seus motivos: percebia ponta de inveja nos olhos de Clarice. Inveja de Maria.
De secretária passou a sócia, menos de um ano. À princípio, o casal estranhou. Queriam a loja somente para os dois – sonho secreto mágico indivisível. Entanto, uma das táticas manejadas com virtuosismo por Clarice: tornar-se imprescindível ao outro. E como tudo funcionava bem...
Encomendas, das mais às menos usuais. O recanto logo criou fama. Um pequeno bar acompanhava as tardes, o anoitecer. Fotografia. Nada melhor do que a verdadeira pinga de Parati enfeitiçando a réplica do antigo porto.
Anfitriões de corpo e alma, João e Maria. Clarice? Incógnita.
Nem com tanto trabalho, Maria abrira mão de seus dias em Parati. Recuperar-se para adquirir novas idéias e forças. Na última vez, logo ao chegar, deparou-se com uma cena que a fizera estremecer de tamanha emoção – beleza e raridade. Noite gloriosa, estrelas piscando no céu e o barulho das ondas ensaiando uma melodia. Melodia serena que embalava natureza tão harmoniosa. Saudades de João e dos gêmeos. Pela primeira vez... Lágrimas doces escorriam-lhe rosto abaixo. Fotografia.
Grupo de crianças brincando de roda. Até aí nada de mais. Mas elas ziguezagueavam, rodopiavam, dançavam feito bailarinas. Filhas do fértil solo. Musical.
"Pai Francisco entrou na roda tocando seu violão – bararatimbumbum". Cantiga antiga e fácil de ser memorizada pelas crianças. Que pareciam voar de prazer e alegria.
Noite em Parati, paraíso, bares repletos e lojas de artesanato abertas. Festa constante, fonte de inspiração para seu saudoso lugarejo em Santa Teresa. Descobrira apaixonada: nada como sentir saudades daquilo ou de quem amamos.
Dia seguinte, dia de voltar. Maria - nova refeita feliz. Entre orquídeas e bromélias se despede. Últimas caminhadas com intensas variedades de pássaros rasteando-lhe os passos. Fotografia.
Ao chegar...
Estranha notícia: que breve, muito breve, Clarice ia partir. Significando desfazer o contrato, deixar de ser sócia. Alegando viagem repentina para rever família em Portugal e, quem sabe, morar lá. Insistia em deixar uma conhecida em seu lugar. "Muito trabalho, vocês não conseguirão, sozinhos, dar conta". Maria perplexa, quase acreditando nas palavras da amiga. João aliviado, fácil desconstruir mais uma tentativa vil de Clarice. Finalmente juntos naquilo que lhes pertencia. Fotografia.
Dois meses até o final do contrato com Clarice. E sua partida para Portugal. Dois meses difíceis e complicados: muita desconfiança. Sem nenhum real motivo, apenas intuição. Se estivessem equivocados?
Convívio, por vezes, insuportável! Cada dia, uma eternidade. Distraíam-se, João e Maria, com os amigos. Os de sempre e os conquistados na amistosa loja. "Guianás". Sérgio e Fernanda, os mais constantes e fiéis dos novos.
Enquanto isso, Chico e Bel cresciam. Saudáveis e curiosos. Queriam participar de tudo! Como, de fato, acontecia.
Deixaram de ser chamados de "gêmeos", ganhando nomes. Duas pequenas pessoas com características próprias e marcantes. Ambas sensíveis. Reagiram com indiferença frente à partida de tia Clarice; ou melhor, nenhuma atenção ao fato.
Enfim, Clarice partiu. Maria, única a sentir saudade!
Os artesanatos cada vez mais originais. Guardando apenas a essência dos de Parati. Fotografia. Conhecidos como as belas raridades de João e Maria. Adquiriram o hábito de não repetir peças. JM, assinatura sugerida pelos amigos.
Breve breve, considerados excelentes artistas. Sábios, mantiveram o mesmo estilo da loja. Necessitaram de uma "secretária" de verdade.
Nenhuma notícia de Clarice – estranho! Um cartão pelo menos (Maria, indignada, dizia para os seus). Aqui no Rio, costume de nos falarmos pelo menos uma vez por semana. "Será que aconteceu alguma coisa com ela?" Ligou para a mãe de Clarice, preocupada, para saber da amiga. Reticente, ela disse que a filha continuava em Portugal. Sem data prevista para a volta. Maria não gostou do telefonema, tampouco como fora tratada – indiferença.
Um ano depois...
João e Maria, bastante dinheiro guardado, planejavam uma viagem à Europa. Portugal não constava do roteiro.
Noite muito quente e abafada de verão; previsão de chuva. Conversa no pequeno bar no fundo da "Guianás", entre uma pinga e outra. Regada a cerveja. Sérgio se aproxima do casal e, com coragem: "Difícil de acreditar para mim, imagino para vocês. Passeando pelas ruelas do Jardim Botânico, deparei-me com uma loja de artesanato, cujo nome me chamou a atenção – Parati. Cheiro de algo familiar, porém arrumadinho demais. Formal. Entrei, reconhecendo Clarice que fingiu não me conhecer. Insisti, e a cumprimentei sorrindo. Ela começou a me dar explicações gaguejando. Trêmula. Por que este nervosismo? Não estás fazendo nada de errado. É seu direito..." Olhei em volta, apenas uma Sra. observando. E algumas semelhanças à loja de vocês no começo. Bem no começo. Franquia? Antes fosse.
Maria, atônita, sem saber se ria ou se chorava. Raiva, muita raiva de Clarice. Depois a esqueceu...
Algum tempo depois, souberam por Sérgio que à porta da loja, uma placa: "Vende-se".
Fotografia.

Ana Lia

2 Comments:

Anonymous Léa Madureira Gurgel Lima said...

Oi, Ana!
Parabéns pela crônica! Difícil teste, escrever sobre supostos relacionamentos, numa cena do cotidiano em que não há acertos. Apenas "se esbarram", as pessoas que pretendem envolver-se. E, com muita delicadeza, você tratou do tema. Parabéns!
Léa Madureira

1:32 PM  
Anonymous Anônimo said...

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7:26 PM  

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