domingo, agosto 28, 2005


Bisbilhoteiro o anjo

Chove lá fora, em atraso as águas de março...
Acontece um anjo afoito.
Cansado de escutar as mesmas estórias sempre – um cochilo na fria e chuvosa tarde de Sábado, decide o pequeno anjo. Acordado impaciente para sobrevoar itinerantes cabecinhas bem perto: logo ali, um aniversário e tanto. Pedro comemorava, lépido, os quarenta e nove anos, despedida de meio século? Inusitada, comovente, transgressora, a festa. Tudo na exata medida, desde a originalidade na escolha da data ao suculento cozido em negras panelas de barro. Regado a infinitos chopes – mal terminava um copo, vinha outro melhor ainda. Sorrisos brilhos bolas, emprestavam raro prazer nas expressões vivas e cúmplices dos amigos. Sábias as eventuais trocas de idéias, Pedro, natural, esbanjava alegria aos convivas, extraindo do encontro quase cinqüenta anos de humor, espontaneidade, aconchego. Minúsculo o anjo, retratava detalhes, vírgulas, não ditos, testemunhando peculiar evento – raridade ímpar em tempos virtuais. Onde o império desmedido do efeito previsto, e em série, governa; mas, então, nem tudo perdido... Repetia, repetia, repetia, o incansável anjinho de pernas tortas, dançando baladas e repentes mágicos. Relógios, frenéticos, esqueciam das horas; bem humorados, meros acessórios de enfeite, nada mais. E assim nascia uma lenda, para se lembrar nas tardes de outono, ou, quem sabe, primavera.
Veio o hino do Botafogo – estrela solitária exuberante, vieram os antigos sambas, vieram as dançarinas adormecidas. Audazes, saudosas, irreverentes. Foi um rio que passou em minha vida, não era do céu, nem era do mar... Proféticas as damas do lotação - até altas horas, balançavam trejeitos e dengos caprichosos. Infelizes os faltosos, murmurava o ingênuo anjinho de pé gordo, refastelando-se num ombro caloroso. Veio o bolo vigoroso e franco, vastos e honrosos os "Adeus". Instante de partida, nunca tão belo, promessa de um dia – ano que vem, igualzinho ou melhor.
Acontece um anjo afoito.
Voando, preguiçoso, para o azul – tão longe e tão perto.

Ana Lia