terça-feira, agosto 23, 2005


Alívio

Deixei de lado as lorotas, travessuras, e sandices – refastelei-me quietinha. Sem nada presumir, sem nada inventar. Meu doce adivinho tange, leve, o mel das abelhas, a rosa em paz, o cheiro do jasmim. Indecorosos! Vida virtude vida, compõem sagração de uma jovem alma terna: garoa, de mansinho, pousa no vadio ombro. Apenas. Telúrica a canção que esboço bem perto de você, amor agreste e valente.
Vagarinho, relaxo músculos audazes um dia – saboreio o gomo da tangerina, alaranjada, ao longo do iluminado caminho. Sol claro e oval observa, calmo, as arestas, as molduras, os contornos, da pequena alvorada amanhecendo. Ela clareia interrogações intrusas no recanto meu, novo... Guiado pela gota de orvalho, que se insinua, eterna, no tênue olhar aberto. Meu? Ou do vizinho ao lado?
Desanuviada e tímida, navego entre esplêndidas serestas da longínqua vila onde, mestiça, nasci – fantasiada de véu, santa, e grinalda. Cantava, lírica, versos de Orfeu, intuindo rimas primaveris. Esmaltada a viola? De purpurina, de cetim, de algodão, ébria de tanto soletrar as sonoras palavras do vago sertão meu. Alcancei montes e atalhos, toscos navios negreiros, à procura do peralta menino de terno branco. Perdido? Encantado? Chamariz?
Quem me dera um relampejo breve, suavizando tez cabocla e morena, alva nos sonhos de outrora. Ensinava, convicta, estórias míticas aos fantasmas das mil e uma noites – presentes nas tardes de verão. Cabeceira minha? Desprovida de diários, queixas, calúnias, um só calafrio desconcertado no fundo do baú. Coincidência ou não: pássaros e anjos a protegerem-me contra intempestivos morcegos. Alívio.
Desde quando a felicidade ao lado meu? Cúmplice de aventuras, sombra e água fresca, curiosas, divertidas, azuis – revigorando insosso paladar, entregue aos infortúnios de ontem. Sei lá, não sei, nem pretendo... Visitar lavouras destemidas, enfileiradas feito causos de Maria, aprendiz do matreiro João! Redundantes os personagens meus? Por um triz confusos frente às mudanças insolentes ou contumazes? Pegue o ladrão, correndo.

Ana Lia