domingo, outubro 08, 2006

A cor dos olhos

A cor dos olhos diz tudo
Preto azul verde mel e castanho. Todos revelam
Tem algo melhor que uma história?

Preto é profundo, vive o mistério
Impossível ver além mais que se tente enxergar
Tem algo melhor que mistério?

Azul é mutante, sempre domina
Estranhas estruturas que irradiam luz e provocam dor
Tem algo melhor que viver?

Verde é atraente, pura paixão
Sedução total ao dia, encanto arrasador à noite
Tem algo melhor que paixão?

Mel é o preferido, suave e doce
Quando admirado, só risos; quando tocado, emoções
Tem algo melhor que isso?

Castanho é imprevisível
Horas claro, outras escuro, impossível definir
Quem sabe o tempo consegue?

Todas difíceis de entender
Profundas, brilhantes, atraentes, preferidas. E imprevisíveis
A cor dos olhos diz quase tudo

Ruy Sarno

sábado, setembro 02, 2006



Porque os pássaros engaiolados cantam
Lucia Luiz Pinto
Luiza estava aflita. Andava de um lado para o outro, abrindo e fechando janelas. Subia e descia as escadas procurando coisas que não estavam em lugar nenhum “Que coisa, continuando assim vou enfartar ou levar um tombo. Quem sabe as duas coisas”pensava Luiza ao subir pela décima vez as escadas atrás de seus óculos de ler.
Respirou fundo, lembrou que os óculos estavam na mesa do café, lá em baixo. Desceu. Sentou-se à mesa e começou a chorar. Um choro triste, doído, quieto. Na verdade não tinha acontecido nada especial naquele dia. Depois de chorar por quase uma hora, Luiza se deu conta que estava no limite. ”Que vida doida, ninguém me avisou que era assim, presa em um trabalho que odiava, filhos adolescendo, contas por todo o lado”. E o pior de tudo, apaixonada por Rodolfo, que era irremediavelmente casado (embora a mulher estivesse fazendo doutorado na Alemanha).
Quando terminou esse balanço sobre a vida, Luiza tomou uma decisão. Resolveu fazer um esforço e ir à praia ler um livro, ficar quieta. Afinal era sábado, as crianças estavam na casa do pai e ela precisava mudar de ares. Subindo de novo as escadas, localizou seu arsenal praiano — short, óculos escuros, filtro, toalha e chapéu. Foi andando a pé, de Botafogo para Ipanema pela Lagoa.
“Que bom. Agora é só deitar, apanhar sol, dar umas nadadas e adeus fossa. Fico nova” pensou Luiza enquanto andava na areia, em direção ao mar.
Depois de algum tempo, já bem relaxada, levantou para comprar um sorvete e viu Rodolfo. Sentou de novo, rápida.. Quando ele chegou perto, Luiza fez que ia embora. “ Puxa vida, já estava indo” disse ela bem sem graça, enquanto abria espaço na areia.. “Acho que vou ficar mais um pouco. Está tão lindo o dia!”
Luiza se ajeitando na toalha procurou relaxar. “Será que ia dar certo?” Seu espírito neoclássico dizia que sim, o senso prático dizia que não. Espichou as pernas, fechou os olhos e lembrou do livro que estava lendo, “Um teto todo seu”. Nele, a autora questionava porque as mulheres quando faziam arte e literatura transformavam tudo em expressão pessoal. Segundo ela era como se as vidas, o cotidiano, as pequenas e vulgares lutas e suspiros fossem universais. Por que essa mania de colocar no papel pequenas farsas, dramas e comédias de segunda categoria?
Ainda pensando sobre o livro Luiza abriu os olhos e não viu nada. Levou um susto. Conhecia esse caminho de não ver nada e não era bom. Principalmente porque Rodolfo estava ali, em pé, perto dela. Falaram bobagens, amenidades e tentou de novo. “Senta aqui”, disse Luiza, bem baixinho. Rodolfo ouvindo, respondeu que ia primeiro até a água. Luiza respirou fundo e lembrou do tarô, posto recentemente por sua vizinha. O enforcado, o desgaste, o longo prazo. “Que saco. Eu não aprendo, nem a magia ajuda!”.
Pediu uma cerveja, tomou outra, voltou a ler seu livro. Rodolfo chegou da água, muito tempo depois. Viu que Luiza estava com os olhos cheios de lágrimas e, claro atribuiu ao livro. Ele era assim. Prático, simples, direto. ”Se você quiser uma carona, eu te levo, ou melhor ainda ,quem sabe um almoço, dividir um prato, jogar conversa fora”.
Sentaram no restaurante. Tensos, amigos, mentirosos.
A conversa correu solta. Era incrível como ela conseguia transformar lugares comuns em coisas interessantes. Anos de prática, palavra – arma, palavra – ponte, palavra – morte.
Os olhos de Rodolfo eram tristes. O motivo, efêmero, nada é o que parece. No fim a vitória, o riso mútuo, o relaxamento. Mais uma pequena batalha ganha por Luiza, inútil, mas ao mesmo tempo tão necessária. Não sabia como acabar o dia, afinal não havia ganhoa guerra. Ocupava um pequeno posto, estratégia de soldadinho de chumbo em uma história esquisita, sem começo nem fim, sem pé nem cabeça. O pior foi ouvir o óbvio. “Até que valeu a pena ter ficado com você. Foi bem agradável”
Luiza, com um meio sorriso no rosto e muita pena na alma, guardou os efeitos especiais, esqueceu as frases de almanaque, e entrou no carro. Ficou muda até chegar a casa, ou melhor dizendo, veio cantarolando uma música de sua infância.
“ Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou E a menina que gostava tanto do bichinho chorou, chorou, chorou, chorou...........

sábado, agosto 12, 2006

Benditas as Sombras!


Creio que vocês inda se lembram das primeiras cenas de Cidade de Deus, premiado filme brasileiro. Isso mesmo! Aquela galinha escapando das mãos de quem preparava o sacrifício. Ótimo flash back cuja importância consistia em deflagrar o fato, a história. Nem sempre uma perseguição é irreversível e conduz logo à primeira cena. Por vezes reverte-se o processo, desvela-se o destino. Deixo, porém, ao leitor, as reflexões recorrentes...


Cantarolando uma cantiga de roda, abraçada à boneca de pano, no quintal, esperando os primos e as brincadeiras, a menina. De repente, volta-se para os gritos e xingamentos da De Lourdes. Faca na mão, olhos esgazeados, a cozinheira esconjurava a repetida cena. A galinha escapara de suas mãos! De novo, não! Raza! Raza! Raza! Tinha que pronunciar assim, a palavra de trás pra frente, senão, era "raza" por sete dias em sua vida, já sem sorte.
A ave pôs-se a correr pelo quintal. Sem cabeça! Atrás, o prato, o sangue e, ainda, juntos, caídos ao chão, crista bico pescoço e os olhos baços a espreitá-la. De um outro mundo! Depois, horrorizada, vinha a constatação: jamais poderia abrir geladeira, em dias de galinha ao molho pardo! Matar a sede? Só se for na talha... O cheiro da morte espalhava-se na água do escaldo, pra soltar as penas da carijó mais facilmente. Galinha em seu prato, nunca mais!
De Lourdes pitava sem parar e xingava mais ainda. Quando não fazia o "serviço completo", sentia-se em pecado. E a expiação de suas culpas eram aquelas reações involuntárias, reflexos condicionados da anatomia dos animais. A lei do retorno, ouviu dizer, não falhava. Mesmo não distingüindo bem o que era o tal retorno, admitia uma verdade: quem faz mal seu dever, paga em dobro. E se não acerta de novo, não tem perdão para a alma! Daí sempre o medo a pontuar seus dias, como um pêndulo. Na maioria das vezes, havia mais acertos do que erros. Beirando a sombra das dúvidas, porém, uma bendita vontade de acertar! Nem que fosse a galinha... pra panela!


Escurecia. O homem caminhava sobre a ponte, atravessando o córrego. Há horas em busca da invisível margem. Pra trás, outra ponte que jamais transporia: mãe, pai, mulher e filha. À revelia de seus pensamentos, a estrada seguia. Indistintas luzes ao longe. O abismo das falhas.
De luto, cobre-se o presente. Enterra-se o passado. Desfolha-se a futura árvore. Gênese e caos. Criador e criatura tão unidos, tão distantes! Sente-se em fuga, o homem. Foge,porém, do quê? Não saberia precisar de imediato. Sabe-se perseguido. Atingido, cai à beira do rio. Livre do corpo, foge-lhe a sombra. O olhar atravessando a porta da sala, retornando ao discurso interrompido, aguardando a paz em família. Mas o algoz não dá cabo do mandado. Podia perceber seu resfolegar, entre a vegetação do bosque. Sentia a insegurança do matador atravessar-lhe a sombra. Pior não saber de onde vem a inútil vingança; de onde, o inimigo. Que aparência possui? Como trairá seu futuro?
Certeza, apenas, de que jamais poderiam libertar-se um do outro. A margem e o rio, a vítima e o algoz, o corpo e a sombra... o Pai o Filho e o Espírito Santo. Não lutaria mais contra a correnteza! Inatingível, segue a eterna margem do rio. Apaga-se a foz. Amém!


Saiu em traje de festa. Chegou à hora marcada. Aos seus ouvidos, exasperante, a música do momento. Alegres os convidados. Sabores agri-doces, salgados. Atravessando paredes, temores pressentidos. A escuridão ronda o abraço, o beijo, a fala. Faz calor, mas sente frio. Estranha insegurança! Ela que fora desprendida, despojada, via-se cercada por suspeições. Cada face, ao redor, parecia interrogá-la. Por que fugiu do local do atropelamento?
No trânsito congestionado, bufavam os motoristas. A esquina próxima era um convite. Instinto de competição, ao dobrá-la? Resolução prática, rapidez de raciocínio? Interesse de chegar e sair mais cedo da festa? Qualquer das hipóteses, parecia-lhe irrelevante. Pior, muito pior! Era agravante. Abandono da vítima pelo motorista. Cadeia na certa! Trôpega, sentia agora calor, após a taça de vinho, de um só gole, garganta abaixo. Mas não deu certo! Continuavam, medo e angústia, sufocando-a. A ânsia de sair correndo, impelindo-a porta afora. A liberdade da rua. O trânsito lento continuava... Seu carro, onde foi mesmo que ela subiu o meio-fio e bateu? Onde estava o corpo que pulou ao capô e estatelou-se no chão? Levaram o carro e a vítima, em tão pouco tempo? Que foi feito do sangue que vira escorrer da fronte do rapaz?
O porteiro apareceu com as chaves. Tenta fugir novamente, os pés não lhe obedecem. Alucinações?
— A senhora procura pelo seu carro? Está aqui na garagem. A senhora está bem? Temos um motorista pra levar convidados em casa, se não puderem dirigir. É um serviço oferecido aos convidados. Não se preocupe...
A briga com Raul foi feia. Nem viu quando o cinzeiro voou da mão do noivo e atingiu-lhe o braço. Olhava pra blusa de mangas compridas, relembrando tudo. Não teria como esconder dos pais o fato irrefutável. Seria outra morte anunciada. Há muito silenciara argumentos, esforços pra convencer! Viveria mais um pesadelo, entre fios invisíveis da teia indissolúvel. Tramas de ciúme à sombra de eternas desconfianças que, sem dúvida, queria afastar de seus ossos. Ossos – acreditava ainda – pejados de amor-perfeito e de grande cansaço. Há tempos, morrera lutando. No momento, apenas uma sombra respondia por si e caminhava em seu lugar. Quiçá sobrevivesse!


A porta do templo aberta, mulher e lágrimas imolando a dor. Que resiste à prece, ao cântico suave, ao sono. Perseguem-na, lamentos culpa vergonha. A dúvida, o ódio por ter renunciado à luta. A fraqueza incontida, tanta impotência! "Matar um leão por dia"! Mas agora era a savana inteira que se apresentava a ela. Não tinha mais como resistir. Estava além da força e da vontade. Chorava baixinho, agarrada a criança.
Assinou o termo da doação, no Juizado de Menores. Sem direito ao conhecimento dos novos pais do filho. Caso ocorresse encontro casual, tudo bem. Mas sem identificações, muito menos cobranças, exigências, chantagens. Entendeu bem? Sim senhor, seu juiz. Não vou incomodar (não incomodo ninguém, desde que nasci). Bom, mas se insistir, poderá ser presa, pelo que rege a lei, e diante desse contrato.
A sombra que caminha pela calçada não se debruça em muros, conduzindo a invisibilidade, não se sabe a quem pertence. Por certo cometeu pequenos furtos inconsistentes, logo abonados, revertidos em esmolas, pelos donos do comércio miúdo, na relevância de boas ações. Na rua somem as incoerências. Há menos dificuldades entre os peixes pequenos. Os graúdos escondem-se em locas profundas. A mulher mede espaços e degraus. Recolhe trapos e utensílios.
A companheira de presídio alertou sobre o sumiço dos meninos de rua. Soube que chegaram a fazer todos os testes na sua criança, até ressonância magnética, para apreciação dos órgãos e exames de sangue! Uma fila de doadores, com destino certo! Horror agora, além da humilhação e da vergonha.
Na igreja de portas abertas, vivenciara reza e prostração. Deus ouvira suas preces? A sombra da dúvida, talvez, houvesse afastado o mal. Por enquanto, não saberia dizer. Agora, além de si, existia alguém para somar esperanças. Sombras juntas que se reconheciam. Na mesma luta!

Quando a luz quer brilhar, as sombras se exacerbam. (dito popular).
OLIP: 30/04/2006 Léa Madureira

sexta-feira, julho 28, 2006



A fotografia

Noite de inverno na Serra, a casa da família não recebia hóspedes há quase cinco anos. Taça de vinho, sofá de couro branco, cobriu-se com a grossa manta de lã, sozinha na sala espaçosa, a caixa no colo.

A caixa fora resgatada do armário antigo — tesouro perdido no fundo do mar. A caixa era delicada: coberta de feltro vermelho, adornada por delicadas aplicações de renda, fundo macio, onde, deitadas umas sobre as outras, inúmeras fotografias lhe sorriam. Dedos brancos, magras bailarinas deslizando, com ternura, entre papéis amarelados. Fotografias escondidas há décadas, risos envelhecidos, bem cuidados e protegidos, sofridas apenas as ações inevitáveis do tempo. Espalhadas pelo chão, algumas fotografias coloridas, muitas em preto e branco — suas preferidas. Beijos inesperados, festas, caretas do pai e rubores da mãe. Protegidos de poeiras e traças.

Descobriu uma foto que ainda não tinha visto. Em preto e branco, um jovem casal, sorrisos de lua de mel. Havia algo de especial nela. Ao fundo viam-se casinhas humildes da vila de pescadores, mulheres em recatados trajes de banho, homens e seus calções, correria de crianças na areia. Verão. Cidadezinha desenhada, vivendo e morrendo atrás do casal sorridente. Angústia, saudade, veias entrelaçadas, apertando, sufocando, gosto de sal, amor, saudade. A fotografia em preto e branco e os sorrisos dos pais. Descobertos. Revelados. Ainda viviam. Desejou que o tempo voltasse, que a vida voltasse. E viu a fotografia colorir em seus olhos coloridos. Era como se a fotografia vibrasse e o jovem casal vivesse novamente.

Praia cheia, verão. Faziam pose, equilibravam-se em cima de uma pedra. O riso largo rasgando o rosto largo do pai. Ainda não usava óculos naquela época. Um sorriso leve e preciso. Os braços morenos e compridos enlaçando o corpo forte da jovem mulher — a mãe. A formalidade comportada de papai — blusa branca, calça clara, sapatos — contrastando com a alegria da mãe — vestido branco e azul, estampado. Mamãe adorava vestidos alegres, vestir-se com jeito de sol. Papai: militar, esguio, elegante; mamãe: pés descalços, batom discreto realçando lábios grossos da bela mulata, à vontade em frente ao mar. Mamãe, orgulhosa filha de Iemanjá.

Mamãe ainda sorria na foto. Mamãe ainda vivia na casa onde passaram várias férias escolares. O riso alto, largo e sem censura — invadia novamente os cômodos, ecoava nas paredes frias, espalhava-se pelos quartos, os risos das crianças, as piadas, histórias, músicas inventadas e as sessões de cócegas. Lua de mel em Salvador, o vento soprando forte, bagunçando os cabelos encaracolados e avermelhados da mãe. Fios grossos, longos, espalhando-se afoitos por olhos, nariz, boca.

Ela gargalhava. Riso claro, franco, traços bem definidos, mamãe era toda certezas, franqueza. A jovem mulher respirando serenidade. Mamãe sabia que morreria cedo. E contava aos filhos, ao marido, pedia a todos que se preparassem e aprendessem a viver como adultos, não dependessem dela. Lembrou o quanto a odiara por isso. Como podia dizer que os deixaria, para sempre, com tanta tranqüilidade? Pensava que jamais a perdoaria. A mãe tinha razão. Partiu cedo, jovem demais. E renascera dentro da caixa vermelha. Papai casou-se novamente, o irmão viajou para o exterior. E as fotos sorriam, saltando de dentro da caixa vermelha, onde todos eram jovens e ainda viviam.



Acendeu a lareira, trouxe todas as fotos, jogou-as no fogo, uma a uma. Primeiro veio a fumaça, papel queimando, rostos enrugando, fotografias encolhendo, murchando. Depois vieram as cinzas e a liberdade. Todos livres. Colocaria anúncio no jornal no dia seguinte. Vender a casa. Começar a viver.
Renata do Vale.

terça-feira, julho 04, 2006




DESPEDIDA
Alberto Carraz
Não fui eu quem não molhou as flores, quem provocou tantas dores, quem se armou por inteiro.
Não fui eu quem se abraçou com a bebida, quem me deixou sem comida, quem malversou o dinheiro.
Não fui eu quem dominou a conversa, quem me quebrou a travessa, quem só falou sem ouvir.
Não fui eu quem desprezou os amigos, quem ofendeu os antigos, quem se deixou esvair.
Não fui eu quem não pagou o colégio, quem me deixou sem remédio, quem discutiu com o vizinho.
Não fui eu quem derramou o café, quem sonegou cafuné, quem trocou amor por vinho.
Descanse em paz.

segunda-feira, junho 12, 2006


Roteiro

Pedro trabalhava, árduo, no romance, tentando um isolamento do mundo, quase impossível. Para mergulhar, certeiro, na trama imaginada – ainda no quarto capítulo. Sobre a solidão o romance (aspectos sutis e trágicos), realismo encantatório? Quisera. Nem Pedro sabia... A vida continuava, entanto, ao redor. Irônica frágil irreverente. Absorto em indagações sobre a Escrita: o quanto se torna necessário o distanciamento dos fatos e pessoas comuns, já que os personagens, embora fictícios, são pautados na vida real. Sempre a justa medida atormentando-lhe o juízo. E no caso do romance histórico? Veia romântica perturba a história, esta compromete a ficção? Tantas dúvidas giravam, incessantes, na cabeça de Pedro. Ainda bem.

João e Maria discutiam alto sobre qualquer coisa, pouca roupa no corpo, chegando às vias de fato. Que vias? Depende da criação de quem os escutasse – precisavam de platéia. E como. Razões as mais tolas serviam de deixa para o espetáculo: comida do cachorro, febrícula do filho, desaforo da sogra, etc. Agora a briga versava, calorosa, sobre o novo morador embaixo. Bonito o rapaz, de posses (parecia), João morrendo de ciúmes. Maria feliz a sorrir farta, inseguro o maridinho, vencera a partida desta vez.

. Gostava da “suposta” solidão o garoto, desde que lhe admirassem os verdes olhos, nervosos. Herdara um pé de meia reforçado, monte de livros, mas, na maioria, fechados. Enorme a estante na sala, adequada à simples decoração, simples e confusa. Confuso o solitário garoto, apenas um cão fiel a tiracolo, inúmeras as medalhas. Jogador de tênis - Júlio. Atleta das mil e uma noites ou um príncipe sem reinado? Campainha levada revela uma criança silenciosa, arranjo de flores reconforta o ambiente, covinha no rosto a esboçar um sorriso.

Pedro distraia-se com as vozes e ruídos, quarto capítulo reclamava de mansinho. Quem sabe, introduzir ou mesclar outros personagens ao romance: nomes, situações, querelas, desfechos. Infinitas as chances – administrá-las com cuidado. Nada em demasia, dissimulando o óbvio, pitada de humor! Encantar o real? Na justa medida. Sangue percorre-lhe a alma apaixonada, escravos os sonhos loucos, em busca de calma e pouso.

A talentosa e esguia Elisa na beira da janela – naturalista carnal rude. De seda branca a camisolinha, rasgão no ombro, furor ao longo da imagem. Presente o gesto inoportuno de quem, deveras, ousou: acontecimento singular, uma só vez, sensato o véu imaculado? A estória se repete, sempre no mesmo lugar, talentosa e esguia a moça na janela. Asas à imaginação. Leveza ao brincar com o bem-te-vi na sacada, a contrastar com o abrupto e soturno olhar enviesado. De quem odeia... Retrato de mulher!

Uma mulher e tanto – entregadora de pizza em casa. Era um magricelo rapazinho até então, mudam os tempos, rebolava contente a moça. Primeiro emprego? Nova na marcha, na sem vergonhice, no excesso de caras e bocas. Sequer um troco pra vinte, mal articulava as palavras, unhas pintadas de roxo breu. Inventada a cor. Quantos homens a querer um tempero domiciliar, coração de Copacabana, sob o luar de Maio. Feitiço moreno, feitio único, farpas cândidas e negras. Rita.

Pedro devora a insossa pizza até o fim, muita fome, quase o dia inteiro sem comer. Saudades da Amélia – cheiro amoroso e meigo, massa ao dente perfeita, perfeita na cama. Sem defeitos? Distância é sábia, ilude os acordes em ruínas, cantarolando... Comum as brigas nos momentos cruciais do escritor, a incentivar o talento, ou desnorteá-lo? Dor não se explica, tampouco se previne, coração partido assombra as lágrimas guardadas. Pedro negocia com a ferida aberta, ponto final no quarto capítulo, virulenta a falta de Amélia. Ouve a voz da parceira na secretária eletrônica, tediosa a via de acesso, soluça um bocado.
Antes de dormir, corre à procura de Elisa na janela, escura a varanda. Varanda? Talvez.

Sonha um bem-te-vi azul no colo da Amélia. Mudo o telefone pela manhã; do orelhão fala, vigoroso, com a namorada. Relutante e sem vontade inicia o quinto capítulo – retomar o eixo exato. Esquecido?
Quantos seriam? Sete. Grandes e cheios de surpresas.

João e Maria acordam os vizinhos, aos berros disputam pela voz
mais sonora e possante, passarinho fugira da gaiola. De quem a culpa? Cena devastadora toma conta do casal, embriagados de cólera, de medo, de susto. Das próprias e maldosas armadilhas? Cansados das rotineiras desavenças – atores de uma novela vulgar. Vulgares os corpos semi nus dos protagonistas: feiosos gordos tristes. Foi-se o passarinho.

Visita da sobrinha renova o confuso e escorregadio lar de Júlio. Ela chega despenteada, sem eira nem beira, dezesseis aninhos. Flores na mão - ar brejeiro de quem muito quer, seduzindo o jovem tio. Que se encanta com a afilhada dileta! Depois falam mal dos vorazes ânimos masculinos. Pedofilia? Tão em moda o crime, tentação da carne data de longínquas eras, porque agora... Música errante a confundir o panorama. Vale um capítulo? Um longo parágrafo só, soprando a favor, e nada mais.

Novamente a bela Elisa na janela, penteando os loiros e rebeldes cabelos, vento frio atenua o olhar roubado. Tremem os pensamentos curiosos – reduzi-los à uma trama? Vacila a letra e a coragem. Mente em desordem prevê um caos breve, Elisa exibe uma libertina virtude, machucando os aflitos dilemas do escritor por perto. Violento o jeito dela, entreaberto o sonso perigo, fortuito. Elisa se vai atenta, alguém irrompe no jogo, passado tem braços de bronze. Marcantes.

Entregadora de pizza sumiu rapidinho – bom padroeiro enamorou-se de Rita. Prendas e ofertas, várias, mas em casa. Restrita.

Pedro procurou a amada – saudade não lhe dava trégua. Amélia, espanto, indiferente aos rompantes do parceiro, arrumara outro de verdade. Colega de trabalho na Santa Casa da Misericórdia, ambos médicos, angiologistas. Paixão antiga e oculta, rompido o casamento do rapaz, oito anos. Parece.

Amélia é que era mulher! Pedro à beira do abismo: sem sentido, sem juízo, sem tamanho. E tinha o romance pela frente, articulado o enredo, término ressentindo o sofrimento do autor. Corre mais uma vez à janela, todas as esperanças voltadas para a audaciosa Elisa, exilado o retrato de mulher.
O que vê: punhal junto ao tênue pescoço, sangue bombardeando a imagem. A desenhar na parede do prédio um perfil inacabado. Findo o sétimo capítulo e a vontade de Pedro.

Ana Lia



Pedregulhos

Era uma vez...

Em uma pequena cidade no meio da selva Amazônica (flora, fauna, rios caudalosos bem típicos, gigantescas árvores, ancestrais tartarugas aquáticas - embelezando olhares e paisagens) progresso ávido para instaurar-se. Famílias “pacatas” desconfiadas com tantos investimentos. Hotéis, farmácias e, um novo bar no vilarejo... Tudo acontecendo: traições, vícios, roubos – por enquanto, em pensamentos apenas. Igrejinha rezando pela constante fé da comunidade, embora recebesse bastante dinheiro do município. Para calar-se? Diante de promessas e falcatruas? Lendas indígenas arrepiavam-se de desgosto. A da Lua, da Mandioca, do Curupira, prometendo vinganças.
A mais nova invenção: levar o cinema até lá, introduzindo cultura através da produção nacional. Telão na principal praça de Pedregulhos, a única! Motivo de encantamento, orgulho e festa. Festa aos sábados – roupas de chita coloridas, sandálias deixando os pés nus, alvoroço nos jovens corações de todas as idades. Desconfianças de mãos dadas com as vitórias régias. Sinuosos destinos.
Bem verdade que, logo, na exibição do primeiro filme, grande tumulto: “Deus e o diabo na terra do sol”. Metade das pessoas entenderam, já a outra não; divisão e muito barulho na praça e no novo bar. Ressaca de botar medo no Domingo, noivados rompidos, desavenças entre amigos, “Romeu e Julieta” ao vivo. Um tal de se rebaixarem, uns aos outros. Simplório Pedregulhos, dividido entre famintos intelectuais e bobos da corte. Curupira exultante! Primeira querela a inundar de desavenças o solo do vilarejo. A Santa Igreja interveio em nome da abençoada paz, pedindo às autoridades um filme mais leve.

Como resposta, enviaram: “Ele, o boto” – lenda comum na região, mas que dava pano pra manga, principalmente entre as devotas solteironas a bisbilhotarem vida alheia. Cuidado com os cor de rosa: perigoso e traiçoeiro – diziam sem parar, morrendo de vontade de encontrá-los. Um só mergulho e pronto! Senhoras fofoqueiras quando viam mãe solteira, repetiam em coro: “caiu nas lábias do galante boto”, invejando a sorte da moça. Lenda ou não, pairava enigma no ar (respeito aos bonitos rapazes de chapéu no mês de junho). Fonte de prazer e medo.
Imaginem a excitação das fêmeas no dia do filme, todas repletas de maquilagens e bijuterias, contemplando o “Carlos Alberto Riccelli”. Acharam-no lindo – noite de orgias e sonhos. Felizes, satisfeitos, vaidosos, os rapazes de Pedregulhos: sono geral tranqüilo. Menos a Igreja, tamanha a devassidão. Confessionário vazio ou em festa? Outra queixa às autoridades.

Desta vez enviaram uma excelente comédia, vencedora de vários prêmios Brasil afora: “A marvada carne”. Com a filha da Fernanda Montenegro (conhecida pelo nome) – Fernanda Torres.
Estranho fenômeno ocorreu em Pedregulhos, os habitantes realmente interessados na sétima arte. Queriam saber da estória do filme, do ano em que foi realizado, dos prêmios e da direção. Pesquisaram na Internet (raro o advento do computador), obtendo algumas e poucas referências. No Sábado previsto para a exibição, população atenta e bem comportada, aplaudindo de pé no final do filme. Boas e sérias gargalhadas! Curupira puxou os pés dos mais empolgados noite adentro.

A um passo do progresso – leram o possível e o impossível sobre cinema (na pequena biblioteca de Pedregulhos). Quiseram conhecer os outros filmes do Glauber Rocha, entusiasmados acerca de “Central do Brasil” e mil outras obras primas (“Cidade de Deus”, “Abril Despedaçado”, “Auto da Compadecida”, etc), transformando o lugarejo num mini polo de Cultura, imerso na extensa Amazônia. Amazônia das audaciosas águas, das lendas e causos, das raras e misteriosas vegetações. Incansável sua travessia – caminho dos inúmeros viajantes em busca de sonhos, baladas, silenciosos ritmos.

Breve abriram, entusiasmados, o primeiro cinema de verdade. Com direito a pipocas e namoros – lotação esgotada quase todas as sessões. Pequena locadora ao lado, embora poucos os que possuíam vídeo. Nome de ambos: Nhô Quim.



Promessas e mais promessas: “Lavoura Arcaica”, agora. Promessa é dívida. Comum esperar quase, ou até mesmo um ano, a chegada de um novo filme. Mas valia a pena, e como! Curupira em paz.

Era uma vez..

Ana Lia.

sábado, maio 20, 2006




Homem na janela

Vaga idéia de quem era, lembranças perdidas ao léu, estranhando as próprias mãos, vigorosas. Vestes sóbrias e sombrias, jeito rude de apresentar-se, pouco importa a aparência. Solitário no mundo, torporoso, uma fotografia ampliada na parede. Sorria, automático, para ela – sem noção do que significava. Seis figurantes. Restos alimentares em volta: pão preto dormido, queijo de coalho partido em triângulos, café com leite cheio de nata. Este seu atribulado e conciso pé de meia, morada tímida, suficiente, retraída. Olhar à espreita...

Janela em frente ao corpo inerte, avistava um corpo de mulher em movimento. Com um binóculo e uma lente de aumento desenhava-lhe contornos, expressões, sentimentos. Rara a sutileza, ambíguos os gestos, real a presença. Desde cedinho, ao amanhecer, quando o sol despontava luminoso, até o final da tarde antevendo delírios e aventuras. Vaso de flores tropicais rejuvenesciam a bela imagem. Mármore ou pedra sabão, a escultura?

Tinha um namorado a moça em frente, o mais assíduo dos visitantes, magriço e pálido. Ciumento – talvez. Não fazia jus à lânguida Sofia (ganhou um nome a personagem), nem à calorosa meninice a definir-lhe o jeito, levianos os cabelos de mel. Sofia.
Afinada a corda do violão, música beirando o chique, entre tantos pendores. Professor vinha para as aulas dia sim dia não, exceto aos domingos, arrebatador o intuito. Sofia aprendia a lição, supunha o narrador recluso, toque de malícia rondando a cena.

Arrebatador o olhar do homem na janela, visceral e único, corroendo-lhe a alma esquecida. Coração a reter majestosa relíquia, nua no lençol aberto, corpo em carne viva. Bravo o guerreiro oculto, azul o esperançoso horizonte, sombreado de tramas e baladas. Pele morena do homem na janela a apropriar-se inteira de Sofia – revelando inéditos gozos, vagarinho se vai bem longe. De nada sabe a moça?

Padre fervoroso a visitá-la sempre, perdoar-lhe os mesquinhos pecados, em troca de uma Ave Maria, três Pai Nosso, cinco Salve Rainha. Aleatórios os números e arrependimentos. Sofia jamais relutava os dizeres do frei, confiando no supremo Deus, nas rezas dos fiéis mortais. Agonizante o rebanho!

Vida de Sofia dando sentido aos olhos famintos do homem na janela. Destituído de valor e censura – alarmado com tantas interrogações. A inventar um pedaço de estória qualquer, sem brilho o resto de tez revolta, um dia convincente. Inúmeras as tentativas em recordar o passado: Família? Filhos? Mulher? Retrato na parede onde o homem na janela não se percebia em nenhuma daquelas pessoas – cúmplices, felizes, solidárias. “Cumplicidade”, de onde vinha o registro deste estado de ânimo? Ou parceria? Inviolável a certeza atordoando-lhe o corpo. Conhecedor de infinitas nuances, cultura razoável no peito, doente das trevas? Desvio na rota – urgente o retorno à janela, luz no denso clarão, Sofia. Lúdica.

Novo o rapaz com um ramo de rosas na estampa; quem seria... Tantas as armadilhas criadas pela moça, adepta aos imaginários seres de alcova, em cada um nascia um vulcão. Prestes. Sofia tremendo incrédula – ponta de angústia reveste o encontro, faceta frágil a revelar outra donzela. Terra rodopia vagarinho, quase desmaiam as ancas da moçoila e do homem na janela, juntos. Chamas audazes irrompem sem piedade. Fatídico o enredo, nó sufoca a garganta de Sofia, crime ou suicídio?

Qual nada, costumeira a nuvem de pedra no binóculo do homem na janela, mal estar apenas. Retrato continua o mesmo, igualando uma paz devassa, perigosa. Ébria a miragem de Sofia, curvas feiticeiras a sorrir, vastos os lençóis de seda. Sonhos enlouquecem a lente de aumento. Fictícia a trama de outrora? Nem todos os gatos são negros. “Quisera um novelo de lã, mantas e mantas, quando chegasse o inverno”.

Senhor de cabelos e barbas brancas, maduro no andar, na preguiça, na espera. Pai? Sofia à vontade, beija-o na boca. Ardente. O tempo pára, o sol se põe, a canção calou fundo – mar recupera a ilha afoita.

Homem na janela imagina uma visita à moça Sofia, hesita um tempinho, melhor tê-la de longe. E se ela não existir? Ou, então, for feiosa? Mau hálito? Desenganada? Série de maldições desarmam o homem na janela – nem nome ele tem. Horizonte lá fora inova um poema azul e sincero, esperançoso, abrigando letras e palavras.

Nada será como antes amanhã, que notícias me dão dos amigos?

Ana Lia

Tema livre

quinta-feira, março 09, 2006



Bem-te-vi.

Da janela, observa-se um garoto assistindo cruel briga entre os pais. No olhar de cada um a morte rondando desesperada - uma cena prevista e há séculos repetida. O pobre menino assiste, sem poder interferir, espetáculo horrendo a corroer-lhe alma tão sofrida para sua pouca idade. Espelho se quebrando, vozes alteradas e pérolas espalhadas pelo chão – no dia seguinte a paz voltará a reinar no lar-doce-lar da nobreza humana. Enquanto isso, o garoto chora, soluça, para depois se recolher à triste condição imposta. Acaricia o gatinho que lhe traz abrigo nos momentos dolorosos. Triste gato, triste vida, triste...

Será que o meu passado, a minha meninice foi assim? Não lembro de nada, apenas de um casebre espatifado, onde habitam restos de memória salvos pelo tempo. Continuo sem resposta. Duas ou cinco namoradas, com elas conheci o sorriso, mas fui por todas deixado. Sem sequer saber a causa.
Acostumei a viver solitário. Nas manhãs encontrando fiel amigo: um bem-te-vi que soletra meu nome, da mesma forma que o próprio. Generosa alegria, pena tão fugaz – Bem-te-vi. Herculano. Deixo sempre água limpa e minúscula porção de comida, suficiente para nossa sobrevivência. E o resto do dia?
Com ajuda de um binóculo, meticuloso, acompanho o cotidiano de alguns vizinhos. Nada de novo acontece, pelo menos envelhecemos juntos – estranha maneira de relacionar-se. A minha. Recente, bem recente, comprei uma lente de aumento para adaptá-la ao binóculo, já que minha visão piora a olhos vistos.

Pontuo, agora, um casal de velhinhos aguardando o fim; embora ao tocar o telefone, eles renasçam. O filho que partiu e nunca mais voltou, ou a sobrinha jurando visitá-los – tudo fruto da minha reles imaginação. Como sou medroso, não me atrevo a oferecer-lhes um instante de convívio, quem sabe seria bom para os três. Algo me paralisa, nem um passo no sentido de tentar uma mudança – sou fiel ao meu amado bem-te-vi. A diferença consiste na nossa troca matutina: ele me dando pouco de alegria e música, e eu a prometer-lhe juras de eterna fidelidade.

O terceiro foi aquele que Teresa deu a mão. Deve chamar-se Teresa a moça em frente: insinuante, magra, corpo esbelto. Vários homens costumam visitá-la, desfrutando da sua carne – uns prometem voltar, outros de fato retornam. Confesso que me excito a maior parte do tempo. Adormeço de madrugada, troco as aventuras de Teresa pelo meu querido bem-te-vi que, sonoro e suave, desperta-me. Acaricio em pensamento sua presença, do jeito que me é possível.
Noite fria, a falta de uma brisa morna a desconfortar-me, incessante, puxo, então, o cobertor. Desisto de dormir. Escuto barulhos em demasia na casa de Teresa – corro atrás do meu binóculo. O que vejo? Ela sendo esfaqueada por um dos milhares homens com quem dorme. A única coisa a fazer é chamar a polícia, mas estou paralisado: como vou explicar. Podem me eleger o culpado. E se tiver sido eu? A dúvida me persegue, talvez eu seja condenado por espiar, sofregamente, vidas alheias.

Dia seguinte, o bem-te-vi não veio me ver. Chorei demais, vida acabou, amarga.
De noitinha entrego-me à polícia, interrogatório extenso demais. Lembro-me do nome Herculano apenas. Criminoso ou não? Nem eu sei. Virei notícia e página de jornal. E o pior, considerado inocente por falta de provas.


Ana Lia



Córrego triste

Era uma vez...

Córrego triste e solitário, ao léu, a sonhar por dias melhores. Seco, abandonado, disforme. Ninguém o olhava, nuvem sombria a esconder-lhe o monstruoso perfil, folhas e flores partidas. Mal do agreste sertão corroía-lhe o esqueleto, ossos à flor da pele -– sedento o córrego.

Tinga e Jacobina não se cansavam de rezar pelo Córrego, imaginando um bocado de águas mansas no belo leito de antes, respingos sorriam em paz. Mas nada de novo acontecia na região, furiosa a seca má, jogando fora as esperanças das índias. Que choravam, fartas, prantos e prantos, refrescando a tristeza. “Tadinho do Córrego – sequer uma lágrima de consolo.” Compaixão. De onde vinham as lágrimas? As explicações dos homens pouco adiantavam: conduto lacrimal, glândulas, etc. Magia da lágrima, indiazinhas insistiam, remando ao desconhecido e bravo mundo novo. Jururu, amigo de Tinga e Jacobina, a desencorajar os passos das aras. Jururu ressabiado, feioso, tristonho: caída a inexpressiva face, magricelo, fazendo jus ao nome. Elas deitavam-se no colo do Córrego, felizes: mantê-lo bem vivo, dádiva preciosa sob o sol de quarenta graus.

Sempre que bebiam água, guardavam uma porção para ele, banho mirim. Lembrete das namoradas persistentes. No meio da densa selva sergipana, retrato imperfeito do Brasil. Por aí vai a estória – enjeitadinha e preguiçosa. “Gosto da lágrima já trazia em si admirável frescor”. Aos olhos das sábias índias, os dizeres. Nem esse bem, Córrego possuía - de dar dó o pranto indecoroso, mar tão longe. Compaixão.

Veio um bichinho, repleto de encantos, visitar a floresta, parecendo uma cutia. Risos e risos. Desde o pouso, trouxe um punhado de bonanças à mata, aos outros animais, às flores. Logo chamaram-no de Sorriso, franco nas horas imprecisas, emprestando simpatia gostosa. A selva mais verde ficou, jeito de retribuir os carinhos, até a lua se arriscava num palpite. Enlace das águas? – Sorriso e Córrego juntos. Olhos nos olhos, deleite aguçando os semblantes, paisagem tranqüila e próspera no sertão nordestino. Milagre! Foram tantos os encontros, um sorriso na lapela, uma flor branca nascia.

Nascia no Córrego triste aberto agora à imensidão do mar azul. Sorriso, galante, inventou uma ponte elevadiça, que unia o Córrego ao oceano. Ponte Vermelha. Avalanche de águas jorravam, ébrias, no solo promissor – Córrego a renascer cristalino. Tinga e Jacobina cantarolavam incontinentes; Jururu, cismando jururu, com o fim do mundo. Sorriso falhou em querer outro destino ao pobre índio, nem tudo é possível, valeu a intenção. Brinde arrojado na selva refeita, gole de Maria clara (pinga do lugarejo) para os esperançosos, cachaça a ver navios. Tome uma, tome mais água, refrão de um sonho catimbeiro. Vai e volta, mergulhos interrompidos à sombra de uma palmeira, brisa morena da cor de Maíra.

Lágrima desabrocha livre – inundando os belos cenários da mata, Sorriso, valente e galanteador, olha a cheia ininterrupta, tão avassaladora quanto querida. Lágrima só existe após a dor de amar em paz. Sorriso, voluptuoso, reinventa a paixão eterna. Tinga e Jacobina a contemplar o risonho Córrego.

Branca a flor colada à concha tímida – relíquia voando céus e céus.

Era uma vez.

Ana Lia



Sonhos

Iracema, Yara, Judá – corpos lânguidos e largados a despir densa relva! Cenário desaguando no riacho florido, não fosse a aflição dentro do peito. Há tempos não sonhavam, noites mal dormidas - em frangalhos a alma. Perdida a imaginação, o sorriso, o fogoso e matreiro olhar. O que aconteceu? Roubaram os encantos dos jovens indiozinhos. Quem? Velha bruxa andava solta pela floresta, quebrando os galhos das árvores, um tal de vento marrom a soterrar sementes e plantios. Desesperados, os três queriam conhecer os mistérios dos sonhos: origem, evolução, infortúnios. Trazê-los de volta – sábios dos seus mandamentos.

Difícil e inglória tarefa, uma vez vitimados pela ausência deles, sem vestígios de idéias por onde começar. Corpos combalidos pela falta de brilho e coragem. Exaustos – infrutífero o desconfortável sono, como as folhas caindo no desalento. Ingrato o solo. Sombras e penhascos incontinentes, a gargalhar a miséria impune. Deusa da Maldade reinava sob a forma de bruxa, espalhando ciscos nos olhos dos serenos índios. Daquela brava terra brasileira, à margem do rio Negro, próximo ao sonhado paraíso. Costumeiras as lendas mestiças para assombrar deleites fantásticos, oriundos das belas índias férteis e prenhes.

Iracema, louca, via seu mundo em ruínas. Tez a envelhecer trágica, sem graça a vida, nem mesmo um pranto. Lágrimas fugiam, velozes, rio afora. Rudá emudecia, perdendo a sonora voz. Traiçoeira? Yara jorrava sangue do ventre, e da boca uma lástima em caracol. Disforme a índia frente aos demônios da Deusa. Foi-se o tempo da Vitória Régia.

Taciturnos os invernos mornos na negra selva, ensolarada a esperança cega, presságios e maus presságios. Recorreram os três à Deusa mãe – Ceci. Colo abrigo fonte. Encontro com as águas límpidas, turvas as maledicências de outrora, um pouco de brisa. Pouquinho.

Ceci, mansa, afirma que a resposta tão cobiçada sobre a origem do sonho repousa no coração turbulento de cada um. Sugere outra pergunta – razão e vontade dos sonhos? Novo o caminho? Lembra a Deusa mãe o sorriso interrompido, o vago olhar, a lágrima fortuita.

Queriam uma noite de sono legítima, para desvendar o porquê e o desejo dos sonhos. Impasse crucial – como refletir acerca de algo tão necessário, se os pensamentos tornaram-se quase automáticos. Beirando à espécie animal. Nesse ínterim, uma breve e opaca luz: preconceituosos em relação aos animais. Discernimento, afeto, e sobrevivência; sem relembrar infinitas qualidades outras, pertinentes aos anfitriões da mata. Acesso aos sonhos? Estaca zero o raciocínio dos índios!

Retornaram, perdidos, na suposta direção de casa. Desanimados. Vivos, apenas, com a aconchegante imagem de Ceci a cariciá-los – eterna. Iniciada a longa e duvidosa travessia, surge logo uma pequenina onça com cabelos de mel, balbuciando desconexos sons. Gestos a revelar fortes ímpetos em ser escutada. Mãos suplicavam um ombro amigo, pés às avessas, batimentos do coração em folia. Universo rodopiava, agora, ao redor do alvoroçado quarteto, uma borboleta azul a tudo assistindo. Camarote.

A minúscula onça ganhou o nome de Maíra – jovem guerreira a salvar os atributos da gigante floresta. Dois olhos adivinhos e a perseverança na aveludada pele. Maíra grata pelo feliz nome. Expressiva a face, adquiria sentido a trôpega fala, presenteando-lhes com uma estória.

Era uma vez

Um casal de fogosos índios apaixonaram-se vorazes e únicos, Itacira e Kiary, cujas famílias em constante pé de guerra. Inimigos imortais, diziam: “desde longínquas eras”. Onde o sonho era gente – retratada numa sábia mulher que se escondia do sol, embaixo de árvores encantadas. Encantos criados pelos feitiços dos Deuses da Esperança.

Sombra de Romeu e Julieta universal rondando os amantes.

Apesar das profundas adversidades, Kiary e Itacira viviam o esplendor da paixão, até mais não poderem! Escondidinhos e fartos. Durou um tempo infinito o amor, regado a lindas canções de bem-querer, e raros desencontros. Quase nenhum. Desafiavam perigosas alamedas, espalhadas pelo caudaloso Rio Negro, cujas águas guardavam os sonhos de Kiary e Itacira.

Rouca a voz de Maíra, precisava de trégua e repouso. Adormeceu. Os três indiozinhos cuidando, satisfeitos, o sono da onça. Mudos, ainda, o sorriso de Iracema, Rudá, Yara. Quase um dia de descanso, exaustas as cordas vocais da pequenina, toda a esperança do mundo retida em sua alma.

Despertou serena e bela, admirando a fé e a prontidão dos índios. Sentada, confortável, prossegue a estória; de longe a borboleta azul à espreita.

O inevitável aconteceu – Itacira grávida! Floresta clara e majestosa, céu esplêndido a perdoar os pecados mil, flores renasciam eloqüentes. Festas, festejos, festins. Assoberbados os Deuses lá em cima, brancas as nuvens delgadas, ventre de Itacira crescendo. Itacira e Kiary ousaram revelar a lenda em que viviam há séculos, lindo o amor que carregavam no colo, a imaginar uma reluzente mata verde.

Quis o destino uma desgraça, traindo-lhes sonhos e conquistas - morcegos machucavam as tenras crianças com ganância. Maus. Soltas as venenosas serpentes, macabras as cenas de tortura, colérica a barrenta lama do chão. Entanto, o ventre de Itacira avolumava-se mais e mais – medo? Nunca.

Numa madrugada primaveril nasce Moema.

Maíra, fatigada de novo, pedindo um cochilo rápidinho, aceito. Mais seis horas se foram – os três índios sabiam do valor em esperar! Reconfortada, Maíra continua. “Metade fêmea, outra metade semelhante a um tronco de árvore, a recém nascida. Estranha criatura. Itacira tomada de pânico, mal conseguindo aproximar-se da cria, Kiary perdeu a razão e a memória. Sumiu no, então, violento Rio Negro; nunca mais se ouviu falar dele. De sua cegueira, de sua errância, de seu malogro. Vingança das famílias, mantendo – acima do bem e do mal a soberana discórdia. A disseminar outros terríveis males: comprometimento de valiosos dons na alma dos homens. Lágrima, sorriso, olhar, sonho. Tempos em tempos soltavam poderosos ciscos de horror na floresta Amazônica, de acordo com os Deuses Vencidos, acompanhando o ciclo de vida dos justos sonhadores. O doce olhar do amante, o sorriso da flor, a lágrima da borboleta azul. Vingança, silenciosa, reinava fugaz e destemperada.” Sob o céu de Satã?

Maíra, ao terminar o relato, desmaia – transformando-se a onça num alvo lírio de marfim, enebriante o cheiro. Rios de lágrimas inundam a tirana selva.

Iracema, Rudá, Yara, adormecem serenos. Lua cheia recupera a alegria roubada, estrelas caem, radiantes, na nova floresta, sonhos cancioneiros refazem o sono dos indiozinhos. Sonhos redondos, audaciosos, e brancos. Até... Ceci repousa, tranqüila, à sombra de uma árvore mágica.
Borboleta azul, de todas as cores, levanta vôo perspicaz. De onde brotam os sonhos? Da imperiosa força de driblar os desencantos e misérias da selva?

Era uma vez.

Ana Lia

quarta-feira, janeiro 25, 2006




Cilada

Embaixo da escada, passei várias vezes,
por mal querer e sorte
- desavisada
E depois, sem mais que nada,
por dor, paixão e morte,
inscrevi destino e sina – reveses.
Recebi do azar dotes e porte,
em primeira mão,
de sim em sim e não em não.
E fui seguindo, sem noite nem seita,
varando a madrugada,
embora sabendo de uivos e lobos,
à espreita.

Amélia Alves

sábado, dezembro 31, 2005




Matuto

Fala oralizante a percorrer agrestes matas? Extenso o país afortunado? De folguedos, misérias, brincadeiras – sonhando sempre um mundo melhor: justiceiros os heróis e bravos homens, extraindo do solo a generosa colheita, a cantiga de roda, o Bumba meu boi. Ensolarados pela abundante seca, adormecidos, entanto, debaixo de uma engenhosa viola, repentistas de coração e poesia. Matuto, encorajas meu limão meu limoeiro, que ninguém é de ferro.

Saudades colorem as ternas vestes, com que inventas um caminho, em busca de novas raízes para os seus. Balbucias, errante, o naufragado som das Pastorinhas – diante das malvadas descobertas no parco glossário, que, sequer, conta uma estória de amor e rendas. E a mulher rendeira? Em que porto ancorou o telúrico corpo? Maria, já longe vai. as ancas nuas, os cabelos de fogo, o matuto jeito de sorrir.

Colossais as mãos que trabalham, dias e dias, nos sombrios cativeiros do sertão – crus e nostálgicos. Cansadas as mãos, imaginando, secretas, o eco dos cocos embolados para atenuarem caboclas mágoas e desavenças, ao longo da silenciosa ira. Adivinhas, mandiocas, jumentos, lavouras, máximas, atiçam sonoros olhares dos endiabrados meninos em festa Natalina. Matutos os maldosos espantalhos a mascararem seculares pecados, dos Senhores de Engenho. Ou Capangas da morte? Cruz credo, cansadas as mãos.

Líricos os trovadores a improvisar loas e canções de ninar, prontas para os pequeninos anjos do Nordeste – verde que te quero verde? Fortes os laços e elos de sangue, renovados à cada seresta, madrugada adentro. O cheiro da cachaça traz ventania do mar, verbete necessário aos profetas retirantes, cúmplices nas falsas promessas. Amena a vigorosa brisa, insinuando a dança das cadeiras, alegre?

Quem me dera louvar a mais piegas das juras, implorando por um pouco de paz e chuva neste amontoado desfiladeiro, em chamas. Que se chama Cabral, que se chama solidão, que se chama vósmicê. E não atente para irmã Joana, ela vinga de uma só vez, removendo embrulhos e toadas. Nem pra vaca desdenhosa, magra feito defunto, leite que é bom – ela vomita pelo ladrão. Chame o dotô: apressado come mal, jorrando fome na mansa maré, enjeitada qual Pai Francisco...

Ana Lia


Mudo o diálogo?

Palavras – ao léu, tragadas pelo vento, soltas no imenso azul do céu. Ventania comovente a guiar-lhes o destino. Desnecessárias, perturbando inúmeras vezes a precária conversa entre homens e mulheres.

Frágil a condição humana e também temerária.

Amoroso olhar (mão e contra mão), simples e sonhado afago, ilustres carícias a imprimirem contornos no corpo querido. Terno universo próximo ao paraíso dos contos de fadas, das eternas quaresmeiras, das indecentes trocas de olhares. Palavras voam nas íntimas imagens desenhadas na voragem das paixões: efêmeras, alucinadas, permanentes.

Quero beijar-te infinitas vezes – delírio do meu amanhecer. Como e com que palavras falar-te-ei deste imponderável anseio. De que servem veementes declarações? Basta um olhar e nada mais, um gesto com a mão cheirando à lírios e travessuras, um toque na tez morena dos lábios teus. Juras passam, olhares permanecem. Emoldurados tal relíquias precisas e preciosas, guardadas bem no fundo do pecaminoso mar. Pecaminoso de tão belo: matizes azuis de todas as cores, espelhando o céu lá em cima.

Navegar em tuas belas canções – feito um aprendiz de noctívagas baladas. Trovador mergulhado no grande oceano, terra das meretrizes e rainhas. Sereias enebriadas pelas tempestivas ondas prateadas, semeando corais e algas.
Navegar no ritmo teu – sonoro e cadenciado o poema submerso há séculos lá no fundo de nossas proezas. Batuque preservado “ao som do mar e à luz do céu profundo”. Raízes que nos pertencem: juntos navegarmos cúmplices.

Sonhar os sonhos teus – mudos numa afável cadeira de balanço, recordando inesquecíveis encontros, raras as traições, alguns benditos tropeços. Assim o nosso mudo diálogo ganha força. Força e limpidez, percorrendo de norte a sul reentrâncias e abismos a nos seduzir. Eternamente.

Ana Lia.

quinta-feira, dezembro 01, 2005



CAIXOTE


De nome, não se fez conhecido. Veio do mar nordestino. De
qualquer madeira traçava enlevos. Arengava modelos alheios. Daí transformar
em moderníssimo banco, em exposição na Prefeitura, caixotes emendados. Não
gostou das homenagens. Cortejava o silêncio. Conversava bem com serrote,
formão e outros aviamentos. Desconstruiu um sem número de caixotes:
valeu-lhe o apelido! Telas de cânhamo recebiam trançadas molduras. Seu
Manoel mesmo, amigo da oficina mecânica, tinha uma delas: cascas de árvores
e ripas de vários feitios. Não cortava madeira de primeiro uso. Rebrincava!
Da porta de um casarão, fez sua mesa. Seu Manoel achava o amigo uma ilha
igual a ele próprio. Só dava braços pra árvores; no mais, água plena.
Começou a fazer mobília pra casar. Não teve espaço pra levantar casa. Foi
morar no barraco. Não deu certo com a moça de idéias feitas. Ela, toda
cidade. Queria trabalhar no centro, em loja dele. Dizia-lhe seduzidas
palavras, vê-se logo, você é artista, tem que se mostrar, viver com a fama e
correr mundo. Descasou, sem ter casado. Fugiu de casa que não era sua.
Deixou-lhe os móveis. Ela vendeu e foi morar longe dali. Aproximou-se do
mar, sem ser pescador. Trocou armário arqueológico por carro velho de seu
Manoel. Conheceu Helga cuja língua era incompreensível, mas de muito amor
cantaram (cantigas em alemão, ele as achava lindo!). Fazia, também, bom
peixe na brasa, pirão e mais no forno desvestido do velho carro. Depois
aprendeu sozinha aqueles desenhos debruçados de superfícies e inventava
outros.
Seu Manoel passou na praia e viu os dois na nova casa. De
madeira firme e imensidão de água. Portas e janelas incríveis e uma varanda
em toda volta...

O nome CAIXOTE flutuava, ancorado no azul castiço dos olhos da
moça. Que se derramavam.


Léa Madureira

sábado, novembro 26, 2005




Vago o tormento

Azul – de quem alucina um grande amor no mar. Voltando de bravas travessias anos e anos, príncipe fiel das insones marés, mágicas as proezas a contar. Pequenina onda geme. À procura do gigante que se foi, prometendo um dia... Grito todas as manhãs por seu nome, de volta imagino um aceno, rabiscando palavras ao léu.

Azul – da acelerada cor do sonho meu. À espreita de águas cristalinas e acesas, lavando alma mui caprichosa, no brando oceano de pérola. Barroca a saudade de mulher, perdida entre tantos pendores, antevendo uma canção de mel. Rebelde o mar, a explodir minúsculos lampejos de paixão, inadvertidas.

Azul – espero, ansiosa, a tarde que chega ensolarada e breve. Olho um barco voltando, quem sabe desta vez, apresso a tez morena. Naufragada entre cálices e chamas, profecias deitadas em verdes mares, pingo de prosa acaricia-me vagarinho. Meu amor perdeu-se tirano. Desato a chorar suspirar chorar – invento nova lágrima!

Azul – despenteio os cabelos com raiva, faço da camomila um chá, enfeitiçando o horizonte sereno. Atino uma ilha assombrada, mergulho no mar solitária, desnudo meu leve corpo. Amo, vertiginosa, as venturas tecidas com as mãos sujas de vergonha. Sonho uma precisa noite de marfim, consolo do mágico Orfeu!

Azul – a pintura emoldurada, afinco, no amanhecer claro. Revoada dos galantes passarinhos em trânsito, inaugurando o colado amor no fundo do mar, conto de fadas cheio de encantos e imagens. Solto a voz feliz, corro em qualquer direção, a sorrir... A sorrir o véu se descortina, pele minha a levitar, respingo a terna brisa. Amanhã.

Azul – a enganar o vago tormento, enquanto meu namorado não vem. Sonhando em alto mar, crio um poema marinho, entre saltos e piruetas. Ilumino o cais, o anzol, a esperança. Renovo o olhar sorridente de quem partiu!

Ana Lia.

quarta-feira, novembro 16, 2005

de alma nova




encomendei uma alma nova
estava a velha esfacelada

será a nova inoxidável
além de blindada

imune à maresia
e à miséria humana


Wanda Lins

segunda-feira, novembro 07, 2005




Quem me dera...

Ser brega um só minuto em minha vida. Fazer do pequenino retalho uma linda almofada, coroar meu reino de formigas com um doce e poderoso emblema, pôr na lixeira um monte de inúteis recordações. Ajoelhar-me, quantas vezes preciso, diante do Cristo Redentor. Orações piégas ao São Benedito, ao espírito santo, ao menino Jesus – rezadas de joelhos na mais honrosa paz. Nem que, de mentirinha, desse um ponta pé no diabo. Com louvor, muita groselha, e um candelabro lusitano. Reverenciar a Miss Brasil, a locutora do rádio, a Neide Maria – em prol dos verdes mares. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Continuar a breguice por dois minutos ainda. Fazer do valente moleque saci um real escudeiro, coroar a mãe benta de beijinhos e creme achocolatado, pôr na feia espinha do meu rosto um chá de esperança. Ajoelhar-me, devagarinho, em frente ao altar, onde Neide Maria foi batizada um dia. Ouvir a novela “Jerônimo herói do sertão”, infinitas vezes, narrada pelo tio Pasmo. Uma poesia para Aninha de encomenda. Um punhado de pomada Pond’s nas rugas da mamãe lá no céu; para Nossa Senhora também. Inventar uma cantiga milagrosa, que salvasse os homens de boa vontade. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Quem me dera todo o tempo do mundo! Para ser sempre o mais brega das peladas domingueiras – casa bendita do Tio Pasmo. A tirar o leite fresco das vacas, escondidinho dos bois livres no pasto. Assombrado com o santo e primeiro pecado meu, gostoso demais a presença da fé. Feita com a voz saudosa do perdão. Juro por Deus, pelo senhor do Bonfim... Quem me dera.

Ana Lia

domingo, novembro 06, 2005



Imaginando o mar e a preguiça.

Nunca o conheci – desgraça festiva transfigurando manhãs de sol em negras madrugadas estáticas. Príncipes e donzelas descrevem o imponderável mergulho: tantas vezes sem volta. Braçadas, corais, ondas. Estrangeiras as mendigas afogadas no triste mar. Imagino suas vértebras, suas catedrais, seus poemas – caudalosas e agonizantes as mágoas.

Apenas rios, riachos, cachoeiras, a navegar na alma escorregadia que porto córrego abaixo. Outrora aveludado de risos e gangorras. Turvas as seculares águas ao lado meu. Enlameado o chão. Lesmas submersas – subvertidas. Fatigado: inconstantes pés adoecendo. Constante a trapaça da terra, ingrato o solo da mãe gentil. Amada pátria?

Mar: quero e quero a razão, o devaneio, o sonho, dos enluarados navegantes profetizando âncoras e telúricos jogos na busca do amor teu. Demoníaco ou angelical. Quase nada importa – conhecer-te por inteiro, feito um vulcão de prata, em chamas. Chamas inocentes e mentirosas, a reinventar o acaso. Demolido.

Não fujas de mim, ò mar de tanta magia. Sou um retirante qualquer, sem juízo porém crédulo; viajante trôpego e maltrapilho de vestes inconsoláveis. Irrita-me o sabor interrompido dos rios, rindo dos amores meus. Anseio a solitária presença de peixes e pescadores, juntos, na triunfante epopéia movida à brisa e fuzis.

Luta nas almas, nos isolados corpos de fariseus e cangaceiros – em alto mar. Violentas facadas, imunes tréguas, carnificina geral. Mar vestido de vermelho, invadindo arranha céus e avenidas. Distantes do agreste mundo meu. Medo a corroer-me vagarinho por dentro; coração selvagem de cetim, purpurina, lantejoula? Em frangalhos lancinantes... Anáguas!

Anáguas de bronze no varal do vizinho – pobre rapaz. Cedo, trucidado por uma raivosa lesma, trazendo como lema (infeliz homem) a sorte de conhecer o mar. Perdera a fronte de guerreiro, abandonando armas, garra e o santo espírito. Sertanejo sem sertão. Armada a luta entre fracos e fortes? Luta armada? Nó na emparedada luz. Paredes semelhantes a esburacados pisos, minguando a carruagem de antigos reinos.

Santarém - lá conheci meu primeiro amor. Em versos.

Cardumes e cardumes, a inundarem-me o corpo de suores e lágrimas; catarse incessante de peixes, esponjas, manjubas. Em fila indiana: dando adeus às gaivotas, às jibóias, às notas musicais. Sonoro o repentista da minha terra, onde não canta mais o trovador. Nem...

Gente – conheci o mar! E a preguiça? Amanhã ou nunca.

Ana Lia., Marinha.

segunda-feira, outubro 31, 2005


Feinha

Filha dileta e fiel do mais que perfeito dos casais – Bonança, sobrenome de cabeceira.

Nasci encurvada, meio torta, caçulinha. Faz mal não! Quase defeituosa, quase temporã, quase tudo: cuido, satisfeita, dos meus pais, adivinhando vontades e queixumes dos dois, divido o coração, agora, em três rigorosas instâncias. Já ia me esquecendo, casei-me com Silvio, cirurgião dentista do bairro. Um pouco chato, diziam as más línguas, mas para mim... Nem pensava em homem, quanto mais casar, dei até sorte – generosa comigo a vida. Sempre reverenciei aqueles que me botaram no mundo, bondosos demais, rosas os vestidinhos herdados pela mana cinco anos mais velha. Vim para concluir a prole de sete, número da sorte e da mentira, gostei. Desde bem cedo, soube dos meus desastrosos dotes físicos (corcundinha!), fingindo não percebê-los, para salvar o soneto da emenda. Fui clara? Ou a emenda do soneto – nem sei mais. Coitados dos paizinhos, nada a ver com o maldoso destino, aprendi os afazeres da casa. Para melhor servir a todos, custei a entender-lhes as mazelas, lento o raciocínio meu. Além do mais, muito míope, demoraram a descobrir. Para quase tudo tem-se uma saída, eficientes as lentes de contato, que alterno com óculos. Jamais sobrecarregar a vista e a visão. Estudei sem nunca repetir ano, nem um mísero rasgo de desobediência, dei certo. Quase uma santa. Afeiçoei-me à Nossa Senhora dos Devotos, prometendo doar de volta as dádivas do Deus Onipresente, servil o testemunho meu.
Na escola, apelidaram-me de carola, inveja da dedicação que eu mostrava enorme, sem nada pedir em troca. Nas horas vagas ajudava na secretaria, não perdia tempo com namoradinhos, vantagens e desvantagens – como tudo na vida. Feinha. Acompanhei, cúmplice, tempos das vacas gordas do meu pai. Defensor dos mais carentes, exemplar advogado, nem sempre vitorioso. Das magras vacas, igualmente aos seus pés, dividindo o pão e a tristeza: ancorados na genuína fé.
Com os irmãos de sangue, relação desencontrada, pouco o convívio – cada um protegia, fervoroso, seu quinhão. Sequer motivo de controvérsia, pra que? chateá os pais, cada qual trilha o próprio caminho, nem todos os gatos são pardos! Freira Josefa me ensinou este dito popular. Emprego risonha. O mano mais velho deu de beber, o segundo morreu, os outros, graças a Deus, ergueram a vida, constituindo famílias. Nascida para ser solteirona, deslumbrei-me ao enxergar – miopemente – Silvio soltando a franga pra mim. Ilusão de Ótica? Bendito cuidador de dentes a oferecer-me carinho e alegria. Agradecemos a todos santos do mundo, milagres existem, repetia a falecida avó.

Silvio: louvável homem do trabalho, mãos marcadas para vencer, salvava os males dos dentes e da boca. Cirurgião dentista – vale quanto pesa o sacrifício, horas e horas estudando, em dia com as inusitadas técnicas modernas. Altruísta de fazer gosto, ensinava aos novos o precioso ofício, excelente professor.
Meio surdo desde moleque, falava baixinho para não chamar a atenção, más as lendas que corriam. Surdos falam alto porque não atinam para a própria voz. A mãe dele deu de massacrar a crença, ensinando o gentil filho a falar baixo, devagar, calmo.
Então Silvio quase lacônico, tímido, de poucos amigos. Com exceção dos inúmeros clientes – verdadeiros irmãos no sentido iluminado da palavra. Filho único o meu marido, sofria desse mal, nem tudo é perfeito. Refrão conciliador a solidificar as amarguras da precária alma minha, junto com o recorrente quase.
Filhos, não o tivemos. Exigir em excesso da gente – que, mui graciosamente, atendíamos aos nossos pais, em primeiro lugar, doravante. Subentendida a pouca prática do amor. Gostávamos de ficar em casa nas horas de lazer: noticiários, novelas, documentários. Futebol sagrado aos Domingos, Silvio torcia desenfreado pelo América, sofrendo feito boi ladrão, à cada derrota. Bastante comum. Talvez ele se permitisse viver no esporte todas as emoções freadas, e eu no vasinho de violeta na cabeceira. Oferecíamos um largo lanche ao anoitecer de Domingo à nossa família. Íamos à missa tão logo amanhecesse o Sábado, nunca me perguntei a razão, nenhuma diferença fazia.

Econômicos em todos sentidos – Feinha e Silvio.

Eis que do nada surgiu uma temperança em mim, Silvio ia completar quarenta anos, apesar dos cabelos brancos já presentes em abundância, eu imaginando uma festa surpresa. Tão longe e inverossímil dos padrões vigentes até então. Aconselhei-me com mamãe, quase a implorar perdão pela absurda idéia, ela, sábia, em silêncio retirou-se da cena. “Você é quem sabe”, vazia a frase?
Procurei, em seguida, uma freira amiga, que, sorridente, adorou a invenção. Quase morri de susto, de medo, de vergonhazinha. Lá no fundo, ponta luminosa de vaidade renascia lânguida, tanto tempo reclusa – trinta e oito anos resignados.
Iniciei a fantástica aventura, infinitos os percalços no caminho, mas nada se opunha à minha insensata escolha. Silvio quase não tinha amigos, questão absoluta em manter firme distância dos prováveis companheiros, salvo os clientes! Embora mal os visse fora do consultório, entanto ciente das últimas novidades particulares de cada um, gerenciando, afável, sabores e infortúnios alheios.
Percorri a sua agenda com afinco, do começo ao fim, eleitos cinco casais amigos. Acesa e atenta, telefonei para as esposas: um já tinha morrido, outro largado a mulher na pior, e os restantes ficaram de vir. Sem compreenderem o porquê dos convites. Ufa, alívio. Pensei nos vizinhos, desisti logo, Silvio fora síndico recente e conseguira alguns desafetos. Contava, solícita, com grande parte da Igreja, família, colegas de trabalho? Sei lá. E os clientes? Dúvida cruel a perturbar-me cansativas noites de sono. Bem ou mal, eu nascia para o inquieto e desordenado mundo - às avessas? Silvio sequer desconfiava, meus olhos em nada o comoviam, a fala emudecia gradativa...
Contratei o buffet, ardente, melhor possível: whisky escocês, vinhos (branco e tinto), refrigerantes, cervejas, batidas, sucos, e até sangria. Salgadinhos quentes, mousses, canapés frios, tábua de queijos. Bolinho de bacalhau de montão, Silvio amava como ninguém. Os olhos da cara o serviço, quase que dou para trás, qual nadinha. Vendi jóias antigas e de família, outras empenhei, um só empréstimo no banco. A festa parecia minha, a cada empreitada o sublime coração meu revigorado, tantas as novidades e descobertas. Quase quarentona!
Encomendei o bolo e os docinhos. Queria enfeitá-lo com uma digna cadeira de dentista com os usuais apetrechos. A doceira pigarreou um pouquinho, mas como o pagamento era antecipado, engoliu seco. O que dinheiro não compra? Rápidos o aprendizado e o raciocínio, antes lentos, renovados um dia depois do outro. Passei a sorrir de contentamento para todos – a maioria das pessoas estranhavam. Docinhos, escolhi os mais comuns mesmo, doce engorda e faz mal. Quando eu já estava na porta, a mulher me chamou: onde vamos colocar as quarenta velas no bolo? Invente, respondi alegre, problema dela ora.

Vez por outra, nuvens negras atrapalhavam o belo cenário, ao imaginar a reação do Silvio. Depressa, ia confessar os pecados...

Comprei um discreto vestido preto, bem fiel à minha sóbria maneira de ser. No máximo um colarzinho de pérolas barrocas. Marquei, bastante antecedência, o cabeleireiro e as unhas. Diferente o corte, suaves mechas douradas, coral o esmalte – medo da persistente nuvem negra a confrontar-me o céu azul. Brilhoso.
Restavam ainda os maravilhosos arranjos de flores, mas só no dia, bem frescos. Vasinho de violeta pobre e sem graça, comparado às divinas encomendas! Escondi uns enfeites novos para a sala na casa da minha sogra. Também umas almofadas orientais e vislumbrantes. Quase tudo pronto – Feinha bonita de dar inveja e dó. Inda que tarde, descobria o prazer, o pecado, a malícia, efêmeras quinquilharias deixadas ao léu.
“Sou, sempre, mais eu, no embriagado reino do céu” – refrão inédito da fogosa Feinha.

Chegado o dia ou melhor a véspera: Feinha mal dormia, Silvio roncava desembestado, ruidoso. A esposa nunca percebera antes o desarmônico som do maridinho, apressou-se de raiva. Qual o quê, desenganos e reticências da suspeita vida, agora. Logo o sol clareou a manhã, nem todos os gatos eram pardos – ufa.
Depois de pronta no salão de beleza, gostou do que viu no espelho. Sorriu. De encontro às belas flores, último quesito, assim imaginava Feinha...

Caminhando de volta à casa, cheia de arranjos no colo, tropeçava na própria sombra. Um nobre cavalheiro, de prontidão, ofereceu-se em ajudá-la. Devorou-lhe o semblante, o corpo, as minúsculas sutilezas, como ninguém o fizera antes. Olhos nos olhos. Feinha esqueceu-se da festa, do Silvio, da infeliz vida de outrora.

Ninguém nunca mais ouviu falar de Feinha, seqüestrada por um estrangeiro ou malandro, tanto faz...

Ana Lia.

sábado, outubro 29, 2005



Dedo mindinho

Pedro cansava-se com freqüência em, apenas, ser mais um perdido na multidão. Igual aos outros rapazes de dezesseis anos: mesmas dúvidas, hábitos, e fugazes anseios. Anseios que se evaporavam na manhã seguinte, sem deixar vestígios, empobrecendo tão tedioso coração.
Afirmavam os pais, convictos, que se tratavam de características da idade. Escolhas e mais escolhas pela frente. De fato, Pedro fazia bem – de tudo um pouco: jogava futebol, namorava, estudava, matava aula, mentia, bebia (em excesso, vez por outra), passeava com o cachorro, tocava violão. Igualzinho a milhares de Pedros na cidade.
Mas desconhecia a paixão, a volúpia, o exagero – alguma coisa em seus atributos que o diferenciasse dos outros. Mínima a fatia que lhe cabia neste vasto mundo: invisível, pouco maleável, indiferente. Pés e passos arraigados ao chão em demasia. Não conhecia o vôo equilibrista dos amantes, tampouco as profundezas do rebelde mar. Somente o azul celeste, estrelas de todas as noites, alguns pingos de chuva – e nada mais.
Sem nada esperar, resolve aderir à tatuagem. Auge da moda, mais uma reles imitação? Será?
Pedro escolhe o dedo mindinho como parte do corpo para guardar a sua marca. Marca inovadora dos novos tempos: um belo pássaro vermelho aterrissando fogoso de um inequívoco sonho de amor. Imponderáveis canções remoendo alma tão inquieta!

“Quero ficar no teu corpo feito tatuagem, que é para te dar coragem pra seguir viagem, quando a noite vem.”

Desde então, saltava aos olhos a desassossegada folia, permeando o itinerante caminho de Pedro. Corpo a ganhar vozes e sonhos – embalados por avencas, madrigais, serpentinas. Inesperadas as ágeis paixões, pulsionando as entranhas do ainda jovem menino. Gentil a alma alada, inda que soturna na longa travessia pela frente. Eterna nos olhos do virtuoso pássaro de fogo, construindo estórias e avenidas no adormecer de Pedro. Aventuras a assolar o antigo cotidiano soterrado no jardim de outrora. Que, sequer, reclama – nem um pequenino suspiro.
Entre infindáveis estrelas, a de Pedro iluminando o universo por inteiro.

“E nos músculos exaustos do teu braço! Repousar frouxa, murcha, farta. Morta de cansaço. Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva...”

Ana Lia.

quarta-feira, outubro 12, 2005


Sereno o mar

A perdoar nossos prosaicos pecados primaveris, gotejando lágrimas azuis – tantas as desventuras sombreadas, os rarefeitos sonhos de linho, as imponderáveis águas de março. Neste solo gentil imagino a ilha de marfim, indecorosa, nua no sereno mar. Marinho. Arrebatador na história, devasso no tropeço, tranqüilo agora. Olhos de preguiça acolhem as enigmáticas canções de Maria. O perfume que roubam de ti.

Sei que há léguas a nos separar. Tanto mar, tanto mar. Sei também quanto é preciso, pá. Navegar, navegar.

A prescindir de nossas inacabadas lutas outonais, viúvas as guerrilhas de sangue, lapidando contornos e crenças. Imperfeitos os girassóis da louca deusa – em busca de um sentido qualquer, que, graciosos, temem uma réplica. De mentirinha. Sereno o mar, enternecendo os imersos marujos lá no fundo, desassossegados e curiosos com as soturnas vilãs soltas. Ainda. Tão perto a brisa vergueira, tamanhos os alentos, enfim.

Sei que estás em festa, pá. Fico contente, e enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim.

A acalmar as turbulentas ondas de prata, perdidas no estreito inverno negro, emblemáticas. Sublimes e sarcásticas as nobres sereias de papel – desenham a vaga dança do Adeus. Esboço de uma desgovernada traineira ancorando no sereno mar. De feitiço as acrobacias das ousadas velas ao vento. Quero um romance de aço, quero um cálice branco, quero um deleite sagaz e eterno. Não quero mais as longas noites insones!

Lá faz primavera, pá. Cá estou doente, manda urgentemente algum cheirinho de alecrim.

A florescer no jardim entumecido e azul, naufragado feliz no esplêndido verão das nossas raízes, onde o samba cadenciou certo. Palma da minha mão – acesa a folia do Carnaval, embriagada a veste de colombina, o pierrô apaixonado. Quem dera um coral vermelho nas sôfregas manhãs mornas, uma lavanda de alfazema, um desatinado gosto de marmelo. Tulipas, sorrateiras, nascem soberbas no sereno mar. Adormecido.

Ana Lia.



Mãe
Renata Valle

Minha mãe nunca falou sobre minha vinda a este mundo. Não sei se germinei de semente, saí do saco de algum canguru fêmea, semeei no vento, explosão de planetas no espaço sideral, cataclismo, boneca de pano bordada pela avó, ou, simplesmente, brotei em seu ventre fértil e limpo de menina.

Não sei quando nasci, nem onde. Não sei quem foi meu pai. Se homem, se mulher, se fui feita pela união de dois corpos, ou pelos fluidos de um corpo só. Tampouco se cresci nas carnes, entranhas, estranhas, ou em laboratório, tubo de ensaio, corta daqui e cola acolá, quebra cabeças de coisas que se amontoam, tipo Frankstein: ser humano montado de restos: cabeça de liquidificador, coração de gelatina, no estômago uma batedeira, mãos de espanador.

Minha mãe nunca falou sobre irmãos, família, heranças e parentes — ainda que distantes. Deixou-me humilde legado: ensinou-me a sorver o líquido da vida, pronunciar alguns sons, a dar os primeiros passos — em princípio vacilantes — e deu o impulso que fez o carrossel girar. Deixou-me ali querendo chorar, cavalos coloridos: bocas pintadas, crinas verdes, azuis e amarelas, sorrindo de desespero e rodando sem parar. Deixou que eu girasse sozinha, entonteci, quase caí, mas não chorei e acostumei a ver o mudo girar.

Lembro-me das mãos macias acarinhando-me olhos, cabelos, preparando-me pratos de feijão e arroz. Cheiros de leite e perfume de alfazema.

Minha mãe nunca me falou de amor. Não disse se realmente existe, se posso tocá-lo, comprar em supermercado ou farmácia, à vista ou a prazo, se entregam em casa e chega ainda quente. Não explicou se é líquido, sólido ou gasoso, se é verdade ou mentira, como tantas que contam por aí.

Nunca me falou do céu e das nuvens, e se há um Deus, e se há algo que ele possa fazer para ajudar. Minha mãe nunca me explicou onde mora essa tal de morte, se mais para o sul ou quem sabe ao norte, se vai, se volta, se dói, onde posso procurar. E se alguém bater na porta de casa à noite, o que digo, pergunto, se atiro ou esmurro, se atendo ou deixo a campainha tocar.

Assim foi que, em um dia de procissão, toda a gente vestida de vermelho a cantar e rezar, um Santo com o corpo cravado de flechas me olhava, parecia-me que chorava, sofria. Minha mãe pegou-me pelo braço e entregou-me à vizinha — velha sem dentes, temia que fosse bruxa. Deixou-me seguir com a outra até o final. Olhava o santo e chorava com ele. Minhas as flechas.

Tive medo, ela se afastou — nada disse, nem olhou para trás e sumiu-se no meio da multidão, perdeu-se por entre as velas acesas. Perdi seu cheiro no cheiro de cera queimando. Perdi seus olhos tristes entre os olhos curiosos que me olhavam. Foi-se para sempre. Esqueceu-se de voltar para me buscar com a senhora — que não era bruxa — e falar-me de tudo que ainda carecia explicar e levar-me com ela para qualquer lugar. Minha mãe nunca me disse o que deveria fazer quando ela fosse embora, virando neblina, fumaça.

Cresci imaginando respostas para os não ditos de mamãe, tentando decifrar seus silêncios. De vez em quando acompanho a procissão na esperança de achá-la perdida a me procurar. De vez em quando o rádio entoa uma canção e me lembra da canção que ela assobiava. Muito baixo, baixinho mesmo para ninguém ouvir. Faço um esforço enorme, quase sem respirar, para fazer silêncio e concentrar-me em sua doce melodia. Minha mãe virou poeira, pipa voada para longe, balão sumido no horizonte.

domingo, outubro 02, 2005



A obra de arte
Anton Tchecov

Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

— Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

— Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

— Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

— Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

— Mas... por que diz isso?

— Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

— Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha, ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

— Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

— É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

— Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por que razão?

— Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho temperamento para isso — descrever.

As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

— O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

— Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

— Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e concluiu:

“Não se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?” ·

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

— Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

— Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

— No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

— Por quê? — quis saber, espantado, o médico.

— Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

— Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

— Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório.

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele.

“É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.

A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

— Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:

— Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta..

— Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

— Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.




Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.


Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

sexta-feira, setembro 23, 2005

FOFOCA FAZ BEM À SAÚDE?

Livro recentemente lançado na Itália defende a tese de que falar da vida alheia, fazer fofoca, faz bem à saúde. Ao indagar à minha amiga M. — leitora assídua das revistas de mexericos — o que achava da fofoca, ela não titubeou:
— Acho ótimo. Menos quando é comigo.
Ou seja, a fofoca não resiste à lei moral de Kant, segundo a qual as nossas ações deveriam poder constituir-se em leis universais. (Se levássemos às últimas conseqüências esse princípio, deveríamos abolir os votos de “muito dinheiro no bolso”, pois o excesso de meio circulante pode insuflar a inflação. O Ministro da Fazenda que o diga...)
Além disso, se a tese italiana fosse verídica, as mulheres gozariam de muito melhor saúde que os homens, já que são elas que se entregam preferencialmente ao hábito da fofoca, enquanto nós, machos, preferimos preencher nosso tempo com atividades mais nobres, como discutir aquele impedimento duvidoso do último Fla x Flu ou comentar os dotes anatômicos daquela modelo da capa da Playboy.
É bem capaz que a fofoca seja tão antiga quanto a mais velha profissão do mundo. A própria Bíblia está repleta de bisbilhotices de botar qualquer programa de fofocas da TV no chinelo. Deve ter sido alguma fofoqueira de plantão que informou o escriba bíblico sobre o incesto das filhas de Lot, que embriagaram o pai para dormir (no mal sentido) com ele, ou sobre a tentativa dos habitantes de Sodoma de abusar sexualmente dos anjos hospedados em casa de Lot.
Um dos assuntos favoritos das fofoqueiras de Atenas, as turras entre o filósofo Sócrates e a esposa Xantipa (diziam as más línguas, devido à atenção que Sócrates dispensava aos belos efebos, preferindo-os à não tão bela consorte). Certa vez (ainda segundo os fofoqueiros da época), em meio a acalorada discussão, Xantipa teria atirado tina d’água no filósofo, ao que este respondeu:
— Depois da tempestade vem a bonança. — E escafedeu-se antes que a cara-metade atirasse nova tina.
A Idade Média foi uma época de importantes discussões. Por exemplo, a natureza una ou trina da divindade, o número de anjos que caberiam na ponta de uma agulha, e por aí vai. No entanto, o que mais distraía as mulheres, quando os maridos se ausentavam para os torneios e cruzadas: falar mal dos vizinhos. Tanto é que milhares de inocentes pereceram nas fogueiras injustamente tachados de hereges, bruxas, judeus...
Avançando no tempo, os “Mexericos da Candinha”, da extinta Revista do Rádio, hoje fazem parte da memória coletiva brasileira. Roberto Carlos dedica-lhes uma canção de 1965 que diz: “A Candinha vive a falar de mim em tudo. Diz que eu sou louco, esquisito e cabeludo. E que eu não ligo para nada. Que eu dirijo em disparada. Acho que a Candinha gosta mesmo de falar...”
Encerro com uma observação: na história republicana recente, graças às revelações (uma forma de fofoca) de ex-esposas de figuras da política, muita roupa suja veio parar na lavanderia pública.

Ivo Koristovsky

domingo, setembro 18, 2005





Como nasce uma história
Fernando Sabino

Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

— Sétimo — pedi.

Eu estava sendo aguardado no auditório, onde faria uma palestra. Eram as secretárias daquela companhia que celebravam o Dia da Secretária e que, desvanecedoramente para mim, haviam-me incluído entre as celebrações.

A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinito pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas, quando se tratava do uso deste traiçoeiro tempo de verbo. O diabo é que as duas não se complementavam: ao contrário, em certos casos francamente se contradiziam. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava. Bastava a primeira para me assegurar de que, no caso, havia um clamoroso erro de concordância.

Mas não foi o emprego pouco castiço do infinito pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

Ah, aquela cozinheira a que se refere García Márquez, que tinha redação própria! Quantas vezes clamei, como ele, por alguém que me pudesse valer nos momentos de aperto, qual seja o de redigir um telegrama de felicitações. Ou um simples aviso como este:

É expressamente proibido os funcionários...

Eu já começaria por tropeçar na regência, teria de consultar o dicionário de verbos e regimes: não seria aos funcionários? E nem chegaria a contestar a validade de uma proibição cujo aviso se localizava dentro do elevador e não do lado de fora: só seria lido pelos funcionários que já houvessem entrado e portanto incorrido na proibição de pretender descer quando o elevador estivesse subindo. Contestaria antes a maneira ambígua pela qual isto era expresso:

. . . no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:

É proibido subir para depois descer.

É proibido subir no elevador com intenção de descer.

É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

Descer quando estiver subindo! Que coisa difícil, meu Deus. Quem quiser que experimente, para ver só. Tem de ser bem simples:

Se quiser descer, não torne o elevador que esteja subindo.

Mais simples ainda:

Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

Se quiser descer, não suba.

Tinha de me reconhecer derrotado, o que era vergonhoso para um escritor.

Foi quando me dei conta de que o elevador havia passado do sétimo andar, a que me destinava, já estávamos pelas alturas do décimo terceiro.

— Pedi o sétimo, o senhor não parou! — reclamei.
O ascensorista protestou:

— Fiquei parado um tempão, o senhor não desceu.
Os outros passageiros riram:

— Ele parou sim. Você estava aí distraído.

— Falei três vezes, sétimo! sétimo! sétimo!, e o senhor nem se mexeu — reafirmou o ascensorista.

— Estava lendo isto aqui — respondi idiotamente, apontando o aviso.

Ele abriu a porta do décimo quarto, os demais passageiros saíram.

— Convém o senhor sair também e descer noutro elevador. A não ser que queira ir até o último andar e na volta descer parando até o sétimo.

— Não é proibido descer no que está subindo?
Ele riu:

— Então desce num que está descendo.

— Este vai subir mais? — protestei: — Lá embaixo está escrito que este elevador vem só até o décimo quarto.

— Para subir. Para descer, sobe até o último.

— Para descer sobe?

Eu me sentia um completo mentecapto. Saltei ali mesmo, como ele sugeria. Seguindo seu conselho, pressionei o botão, passando a aguardar um elevador que estivesse descendo.

Que tardou, e muito. Quando finalmente chegou, só reparei que era o mesmo pela cara do ascensorista, recebendo-me a rir:

— O senhor ainda está por aqui?

E fomos descendo, com parada em andar por andar. Cheguei ao auditório com 15 minutos de atraso. Ao fim da palestra, as moças me fizeram perguntas, e uma delas quis saber como nascem as minhas histórias. Comecei a contar:

— Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.